O Nordeste busca transformar resíduos da agropecuária, da agroindústria, das cidades e do saneamento em uma nova fonte de energia renovável. O tema foi discutido durante o Workshop Biometano Nordeste, realizado em Fortaleza, no Ceará, nos dias 15 e 16 de junho de 2026. O encontro reuniu representantes do poder público, instituições financeiras, empresas, órgãos reguladores, associações e especialistas.
As discussões envolveram a Empresa de Pesquisa Energética (EPE) e o Instituto Clima e Sociedade, além de participantes ligados à cadeia de energia e resíduos. Em publicação divulgada em 15 de setembro e atualizada em 24 de setembro de 2026, o Ministério da Fazenda destacou que a região possui diversidade de matérias-primas, mas ainda precisa superar obstáculos para transformar esse potencial em projetos economicamente viáveis.
Como o biometano é produzido
O biometano é obtido a partir da decomposição controlada de matéria orgânica, como resíduos agropecuários, rejeitos de atividades agroindustriais, resíduos urbanos e materiais provenientes de sistemas de saneamento. O processo ocorre em estruturas próprias, como biodigestores, que permitem capturar e tratar o gás gerado pela decomposição.
Depois de passar por etapas de purificação, o combustível pode ser utilizado em aplicações semelhantes às do gás natural, conforme as condições técnicas e regulatórias de cada projeto. A produção também pode resultar em biofertilizantes, ampliando o aproveitamento dos resíduos e aproximando a atividade dos princípios da economia circular.
Para o Nordeste, esse modelo pode conectar diferentes setores da economia. Agroindústrias, propriedades rurais, aterros sanitários, cooperativas e administrações municipais podem participar da cadeia, desde que haja volume suficiente de resíduos, licenciamento, infraestrutura adequada e capacidade de investimento.
Oferta de resíduos e logística estão entre os desafios
A existência de matéria orgânica não garante, por si só, a implantação de uma usina. Um dos principais desafios é assegurar o fornecimento regular dos resíduos ao longo do tempo. Também é necessário avaliar a distância entre os locais de geração, as unidades de processamento e os consumidores finais do combustível.
Durante o workshop, foram apontados temas como escala de produção, logística, contratos de fornecimento, regulação, acesso a financiamento e definição de mercados consumidores. A combinação desses fatores influencia diretamente os custos e a segurança econômica dos empreendimentos.
Entre os possíveis mercados-âncora estão indústrias, frotas de transporte pesado, redes de gás e consórcios municipais. A proximidade desses consumidores com as unidades produtoras pode reduzir despesas de transporte e facilitar a criação de contratos de longo prazo, considerados importantes para atrair recursos públicos e privados.
Regulação cria referência para o mercado
O ambiente regulatório também foi apresentado como um componente decisivo para o avanço do biometano no Nordeste. Segundo o Ministério da Fazenda, regras da Agência Nacional do Petróleo, Gás Natural e Biocombustíveis (ANP) publicadas em 2026 passaram a tratar de aspectos relacionados às metas para produtores e importadores de gás natural e ao Certificado de Garantia de Origem do Biometano, conhecido como CGOB.
O certificado permite rastrear a origem e os atributos ambientais do combustível. Para 2026, o Conselho Nacional de Política Energética estabeleceu uma meta inicial de redução de 0,5% das emissões do mercado de gás natural por meio do biometano. A medida cria uma referência para o setor e pode aumentar o interesse por projetos capazes de comprovar seus resultados ambientais.
O avanço das regras, no entanto, não elimina a necessidade de planejamento local. Cada empreendimento precisa considerar a disponibilidade de resíduos, a infraestrutura de transporte e distribuição, o licenciamento ambiental, a demanda regional e as condições de financiamento.
Painel da ANP reúne informações sobre produtores
O acompanhamento do setor pode ser feito por meio do painel mantido pela ANP. A ferramenta reúne informações sobre produtores de biometano, localização, capacidade autorizada de produção, matérias-primas utilizadas e dados regionais. A base vinculada ao painel teve atualização informada em 17 de setembro de 2026.
O Painel Dinâmico de Produtores de Biometano da ANP pode ajudar empresas, gestores públicos e investidores a identificar empreendimentos regulados ou em desenvolvimento. A consulta também contribui para compreender como a atividade está distribuída no país e quais matérias-primas são utilizadas em cada localidade.
O debate realizado em Fortaleza reforçou que o biometano no Nordeste depende da articulação entre energia, saneamento, agropecuária, indústria e municípios. Se os projetos conseguirem combinar oferta estável de resíduos, compradores definidos, segurança regulatória e financiamento, a atividade poderá ampliar o aproveitamento de materiais que hoje representam um problema de destinação e, ao mesmo tempo, estimular investimentos e novas oportunidades econômicas na região.
