Entenda os efeitos da acupuntura na dor crônica, insônia e ansiedade do idoso, segundo estudos clínicos recentes

Diego Velázquez
Diego Velázquez
Yuri Silva Portela

Yuri Silva Portela, pós-graduado em geriatria, observa que a acupuntura ocupa uma posição singular no cuidado ao idoso: é uma das práticas integrativas com maior volume de estudos clínicos disponíveis, com evidências que a situam bem acima do nível de especulação ou de crença, mas ainda abaixo do consenso que justificaria sua incorporação sistemática à medicina geriátrica convencional. Para o idoso que convive com dor crônica, insônia ou ansiedade e que já acumula uma lista de medicamentos que não quer ver crescer, entender o que a acupuntura realmente pode oferecer é uma informação clínica relevante. 

A seguir, apresentamos o que os estudos mais recentes demonstram sobre essa prática e o que ela tem a oferecer ao cuidado geriátrico. 

O que acontece no organismo durante uma sessão de acupuntura?

A acupuntura envolve a inserção de agulhas finas em pontos específicos do corpo, denominados acupontos, com o objetivo de modular respostas fisiológicas por meio de mecanismos que a neurociência contemporânea tem investigado com crescente precisão. Na prática, a estimulação dos acupontos ativa fibras nervosas que transmitem sinais ao sistema nervoso central, desencadeando a liberação de endorfinas, serotonina e outros neurotransmissores com efeitos analgésicos, ansiolíticos e reguladores do sono.

Como detalha Yuri Silva Portela, estudos de neuroimagem demonstram que a acupuntura produz alterações mensuráveis na atividade de regiões cerebrais associadas ao processamento da dor, à regulação emocional e ao controle do ciclo sono-vigília. Essas alterações, observadas durante e após as sessões, oferecem uma base neurobiológica para os efeitos clínicos relatados pelos pacientes, que vai além da resposta placebo, embora o componente placebo também contribua para o resultado total da intervenção.

O que os estudos dizem sobre dor crônica no idoso?

A dor crônica é uma das condições de maior prevalência na terceira idade e uma das mais difíceis de manejar com segurança no idoso, dado o perfil de risco dos analgésicos convencionais nessa população. Anti-inflamatórios não esteroidais aumentam o risco cardiovascular e renal. Os opioides produzem sedação, constipação e risco de dependência. Nesse contexto, a acupuntura tem se mostrado uma alternativa com perfil de segurança favorável e eficácia documentada para condições como osteoartrite de joelho e quadril, lombalgia crônica, cervicalgia e cefaleia tensional.

Yuri Silva Portela
Yuri Silva Portela

Na avaliação de Yuri Silva Portela, metanálises recentes de ensaios clínicos randomizados demonstram que a acupuntura produz redução significativa da intensidade da dor em pacientes com osteoartrite e lombalgia crônica, com efeitos que persistem por meses após o término do ciclo de tratamento. Esses resultados, embora não uniformes entre todos os estudos, são suficientemente consistentes para justificar a consideração da acupuntura como componente de um plano de manejo multimodal da dor no idoso.

Insônia e ansiedade: o que a evidência atual demonstra?

Para insônia e ansiedade, o corpo de evidências sobre acupuntura é igualmente promissor, ainda que com algumas limitações metodológicas que impedem conclusões definitivas. Estudos com idosos insones demonstram melhora da qualidade do sono, redução do tempo de latência para adormecer e diminuição dos despertares noturnos após ciclos de acupuntura, com efeitos comparáveis aos de alguns medicamentos para sono, mas sem os riscos de sedação residual, dependência e comprometimento cognitivo que tornam esses medicamentos problemáticos na terceira idade.

Conforme ressalta Yuri Silva Portela, para ansiedade, os estudos demonstram redução de marcadores de estresse e melhora de escores em escalas de ansiedade após tratamento com acupuntura, com resultados mais consistentes quando a prática é combinada com outras intervenções como mindfulness e exercício físico do que quando utilizada isoladamente. Essa sinergia com outras abordagens não farmacológicas posiciona a acupuntura como componente valioso de um plano integrado de cuidado ao idoso com ansiedade crônica.

Como acessar a acupuntura de forma segura e com qualidade?

A acupuntura está disponível no Sistema Único de Saúde brasileiro como prática integrativa e complementar, o que significa que o idoso com acesso ao SUS pode recebê-la sem custo em unidades que oferecem esse serviço. Para quem busca atendimento privado, é fundamental verificar se o profissional tem formação reconhecida pelo Conselho Federal de Medicina ou pelos conselhos de saúde das categorias autorizadas a praticar acupuntura no Brasil.

Yuri Silva Portela frisa que a acupuntura não substitui tratamentos farmacológicos ou cirúrgicos quando estes são necessários, mas pode reduzir a necessidade de medicamentos, melhorar a qualidade de vida e oferecer ao idoso uma forma de cuidado que respeita seu desejo de tratar menos com remédios e mais com outras abordagens. Esse desejo, quando clinicamente viável, merece ser acolhido pela medicina geriátrica. 

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