Em pé na moto de trilha: A lição que todos deveriam aprender

Luca Montari
Luca Montari
Wilson Bachega Junior

Para quem vem do asfalto, ficar em pé sobre as pedaleiras parece a receita certa para perder o equilíbrio. Na terra, acontece o contrário. A posição em pé é a base da pilotagem fora de estrada, e o entusiasta de trilhas e motocross Wilson Bachega Junior a considera a primeira habilidade que um iniciante deveria treinar, antes mesmo de pensar em velocidade.

Um caso ilustrativo, com personagem fictício, ajuda a entender por que essa mudança de postura transforma a experiência na trilha.

A primeira trilha de Rafael

Rafael tem pouco mais de 40 anos, pilota moto na cidade há duas décadas e decidiu experimentar o fora de estrada com uma trail de entrada. Na primeira saída com um grupo, fez o que sabia: permaneceu sentado o tempo todo, segurando firme o guidão.

Nos trechos planos, tudo correu bem. Bastou o terreno ficar irregular para os problemas aparecerem. Em uma sequência de valetas causadas pela erosão, cada impacto subia direto pela coluna, a moto chacoalhava de um lado para o outro e os braços, rígidos, transmitiam cada tranco ao guidão. Ao fim do dia, ele estava esgotado, com dores nas costas e convencido de que não tinha jeito para a atividade.

O que estava errado na postura

Sentado, o piloto forma um bloco único com a moto. O peso fica concentrado no banco, acima do centro de gravidade do conjunto, e qualquer desequilíbrio do chassi se transfere ao corpo. As pernas, que poderiam funcionar como uma segunda suspensão, ficam praticamente inativas.

Em pé, a lógica muda. O peso passa para as pedaleiras, que ficam mais baixas, e isso aproxima o centro de gravidade do solo. A moto ganha liberdade para se mover embaixo do piloto, enquanto joelhos e cotovelos absorvem os impactos. Wilson Bachega Junior observa que é justamente essa separação entre corpo e máquina que dá ao piloto mais controle, e não menos.

Wilson Bachega Junior
Wilson Bachega Junior

Os ajustes que fizeram diferença

Na saída seguinte, Rafael recebeu algumas orientações de um piloto mais experiente. Apoiar a planta dos pés nas pedaleiras, e não o meio do pé, para conseguir movimentar os tornozelos. Manter os joelhos levemente flexionados, encostando no tanque quando necessário para dar estabilidade. Deixar os cotovelos abertos e para cima, com as mãos firmes, mas sem apertar o guidão como se fosse um apoio.

Outro detalhe pesou bastante: olhar longe. Quem fixa os olhos na roda dianteira reage tarde aos obstáculos. Mirar alguns metros à frente permite escolher a linha com antecedência e deixar que o corpo faça os ajustes de forma natural.

Também foi preciso adaptar a moto. Guidão e manetes posicionados apenas para pilotar sentado obrigam o piloto a se curvar demais quando fica em pé. Pequenas mudanças de ângulo resolveram o desconforto.

Treino antes da trilha

A mudança não aconteceu de um dia para o outro. Rafael passou a treinar em um terreno plano de terra batida, em baixa velocidade, alternando entre sentado e em pé até que a transição ficasse automática. Depois, incluiu pequenas curvas e obstáculos simples.

Esse tipo de treino, ressalta Wilson Bachega Junior reduz a tensão muscular, que é uma das principais causas de cansaço precoce. Com a postura certa, as pernas trabalham, mas os braços descansam, e o piloto consegue manter a concentração por mais tempo.

Menos força, mais leitura do terreno

O caso de Rafael resume um aprendizado comum no fora de estrada: dominar a trilha tem menos a ver com força e mais com deixar a moto trabalhar. A posição em pé não elimina a dificuldade do terreno, mas muda a relação entre o piloto e os obstáculos.

Para Wilson Bachega Junior, essa é a virada que separa quem sofre na trilha de quem passa a aproveitá-la: quando o corpo deixa de lutar contra a moto, sobra atenção para o que realmente importa, que é ler o caminho à frente.

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