Nordeste concentra quase um terço das GovTechs do Brasil e abre nova frente para startups de tecnologia

Luca Montari
Luca Montari
Nordeste concentra quase um terço das GovTechs do Brasil e abre nova frente para startups de tecnologia

Mapeamento do Sebrae mostra força de Recife, Fortaleza e Teresina e revela oportunidades para empresas que criam soluções para serviços públicos.

O Nordeste está ganhando espaço em um mercado que pode transformar tecnologia em contratos, empregos qualificados e melhorias nos serviços públicos. Um levantamento divulgado pelo Sebrae nesta semana identificou 3.664 startups brasileiras que atuam como GovTechs, empresas especializadas em desenvolver soluções tecnológicas para governos, e mostrou que 31,9% delas estão no Nordeste. São 1.168 empresas, número que coloca a região praticamente no mesmo patamar do Sudeste, responsável por 32,2% do total. O dado chama atenção porque revela que a inovação nordestina não está restrita a projetos experimentais ou pequenos negócios locais. Recife aparece como a segunda cidade brasileira com mais GovTechs, enquanto Fortaleza e Teresina também figuram entre os principais polos nacionais.

Mais do que uma fotografia do setor, o levantamento ajuda a responder uma dúvida importante para quem acompanha o mercado de tecnologia no Norte e Nordeste: onde estão as oportunidades para startups que querem crescer vendendo soluções para o poder público? O cenário envolve áreas como saúde, educação, tecnologia da informação, serviços digitais, cidades inteligentes e gestão de dados. Também abre espaço para profissionais especializados, universidades e empresas tradicionais que consigam trabalhar em conjunto com os governos para resolver problemas concretos.

Por que o Nordeste se tornou um dos principais polos de GovTechs do Brasil?

O tamanho do ecossistema nordestino chama atenção porque a região já reúne 1.168 CNPJs de GovTechs, o equivalente a 31,9% do total mapeado pelo Sebrae. O Nordeste fica apenas 12 empresas atrás do Sudeste, que possui 1.180, e aparece muito à frente do Sul, com 656, e do Centro-Oeste, com 369. O Norte, por sua vez, reúne 283 empresas, correspondentes a 7,7% do ecossistema nacional. A distribuição mostra que a inovação voltada ao setor público deixou de ser um fenômeno concentrado apenas nos grandes centros tradicionais de tecnologia.

Dentro do Nordeste, Recife se destaca de maneira especial. A capital pernambucana possui 148 GovTechs e ocupa a segunda posição no ranking municipal brasileiro, atrás apenas de São Paulo, com 319. Fortaleza e Teresina aparecem empatadas com 96 empresas cada, enquanto Natal registra 75. Esses números ajudam a explicar por que cidades nordestinas vêm construindo ecossistemas capazes de aproximar startups, universidades, empresas e governos. A existência de parques tecnológicos, hubs de inovação, instituições de ensino e programas públicos de transformação digital pode facilitar a criação de negócios que conhecem problemas regionais e desenvolvem soluções adaptadas à realidade local.

A força do setor também está relacionada aos tipos de problemas que essas empresas podem resolver. Segundo o levantamento, tecnologia da informação representa 15,7% das áreas de atuação das GovTechs, seguida por saúde e bem-estar, com 14,1%, e educação, com 13,8%. Isso significa que uma startup nordestina pode trabalhar, por exemplo, com sistemas para reduzir filas em serviços públicos, plataformas de atendimento ao cidadão, ferramentas de gestão escolar, análise de dados para saúde, automação administrativa ou aplicações de inteligência artificial. São mercados diretamente ligados à qualidade de vida e ao funcionamento das cidades.

Como uma startup do Nordeste pode transformar tecnologia em contrato público?

Para empreendedores, o dado mais importante talvez esteja menos na quantidade de empresas e mais na existência de mecanismos que permitem ao poder público contratar inovação. O governo federal define GovTechs como empresas focadas em tecnologia, processos e soluções ágeis para gerar inovação na gestão pública e contribuir para o uso mais eficiente dos recursos. A Estratégia Nacional de Governo Digital também prevê parcerias com startups e o uso de compras públicas como instrumento para estimular inovação.

Uma das ferramentas disponíveis é o Contrato Público de Solução Inovadora, conhecido como CPSI. Criado pelo Marco Legal das Startups, o mecanismo permite que governos contratem empresas para testar soluções destinadas a resolver problemas específicos da administração pública. O modelo é diferente de uma compra tradicional porque o objetivo inicial é verificar, em ambiente real, se determinada tecnologia consegue solucionar o desafio apresentado pelo órgão público. Se o teste for bem-sucedido, existe a possibilidade de contratação posterior da solução, conforme as regras legais.

Essa possibilidade pode ser especialmente importante para startups do Nordeste porque reduz uma das barreiras históricas para empresas inovadoras: a dificuldade de transformar uma boa tecnologia em receita recorrente. Uma plataforma desenvolvida em Recife, Fortaleza, Teresina, Salvador ou Natal pode nascer para resolver um problema municipal e depois ser adaptada para outras cidades. Uma solução criada para organizar atendimentos na saúde, por exemplo, pode encontrar mercado em diferentes prefeituras, desde que consiga comprovar resultados, cumprir requisitos de segurança e integrar seus sistemas às estruturas existentes.

O próprio levantamento do Sebrae mostra, porém, que ainda existe um grande caminho a percorrer. Entre as 3.664 GovTechs identificadas, 42,2% estão na fase de validação, enquanto apenas 9,3% chegaram a uma etapa de crescimento estruturado e 2,4% atingiram escala. O software é o principal produto, presente em 49,1% das empresas, e o modelo de assinatura recorrente, conhecido como SaaS, aparece em 46,7% dos negócios. Para as startups nordestinas, isso indica um mercado promissor, mas também competitivo, no qual capacidade técnica precisa ser acompanhada de conhecimento sobre compras públicas e gestão empresarial.

Quais empregos e oportunidades podem surgir com o avanço das GovTechs?

O crescimento das GovTechs pode gerar efeitos que vão além da criação de novas empresas. Quanto mais governos adotarem ferramentas digitais, maior tende a ser a procura por desenvolvedores, especialistas em dados, profissionais de cibersegurança, designers de experiência do usuário, engenheiros de software, gestores de produto e especialistas em inteligência artificial. Para o Nordeste, onde a formação de mão de obra qualificada é um dos pontos centrais da agenda de desenvolvimento econômico, a expansão desse mercado pode criar oportunidades capazes de manter talentos na própria região.

Existe ainda uma oportunidade para universidades e centros de pesquisa. Problemas públicos podem se transformar em projetos de pesquisa aplicada, laboratórios de inovação e parcerias com empresas. Em áreas como saúde, educação, saneamento, mobilidade, segurança e gestão ambiental, a combinação de dados públicos, inteligência artificial, sensores e sistemas digitais pode produzir soluções com impacto direto na população. O desafio é garantir que essas tecnologias sejam desenvolvidas com segurança, proteção de dados, transparência e capacidade de integração aos sistemas já utilizados pelas administrações.

Para pequenos empreendedores, também existe uma possibilidade menos evidente: o mercado não precisa ser formado exclusivamente por startups de grande porte. O levantamento do Sebrae mostra que software e serviços dominam o ecossistema, o que permite a criação de empresas especializadas em problemas específicos. Uma pequena equipe pode desenvolver uma ferramenta para determinada área da administração municipal e, com validação adequada, transformar a solução em um produto replicável para outras cidades. O crescimento, nesse caso, pode ocorrer dentro da própria região antes de alcançar mercados nacionais.

Ainda assim, existem obstáculos. A pesquisa mostra que somente 2,4% das GovTechs chegaram à escala, enquanto boa parte permanece em fases iniciais, e empresas que desejam vender ao setor público precisam lidar com processos de contratação, requisitos técnicos, capacidade de entrega e prazos diferentes daqueles encontrados no mercado privado. O caminho tende a favorecer negócios que consigam demonstrar resultados concretos, organizar sua documentação, proteger informações e compreender as necessidades dos gestores públicos. O Compras.gov.br, por exemplo, reúne oportunidades de contratação e fornecedores de diferentes áreas, enquanto mecanismos específicos de inovação permitem testar soluções antes de uma contratação definitiva.

O movimento observado no Nordeste tende a ganhar importância nos próximos anos porque a digitalização dos serviços públicos ainda está em expansão. A presença de 1.168 GovTechs na região mostra que existe uma base empresarial capaz de disputar esse mercado, enquanto cidades como Recife, Fortaleza, Teresina e Natal já aparecem entre os principais polos nacionais. Se governos ampliarem compras de inovação e criarem ambientes mais favoráveis aos testes tecnológicos, a tendência é de aumento da demanda por soluções regionais. Para trabalhadores, estudantes e empreendedores, isso coloca programação, dados, inteligência artificial, cibersegurança e gestão de produtos digitais entre as competências que podem ganhar ainda mais valor. O desafio será transformar a quantidade de startups em empresas sustentáveis, contratos recorrentes e melhorias perceptíveis nos serviços oferecidos à população.

Compartilhe este artigo