R$ 206 bilhões em investimentos no Norte e Nordeste: como novos projetos podem gerar empregos e acelerar a economia regional

Luca Montari
Luca Montari
R$ 206 bilhões em investimentos no Norte e Nordeste: como novos projetos podem gerar empregos e acelerar a economia regional

Ceará, Maranhão e Piauí receberam novos projetos de data center, hidrogênio verde, biocombustíveis e siderurgia sustentável.

Um pacote de investimentos aprovado recentemente colocou Ceará, Maranhão e Piauí no centro de uma nova etapa da industrialização brasileira. O Conselho Nacional das Zonas de Processamento de Exportação (CZPE) autorizou cinco projetos que somam R$ 206 bilhões, envolvendo data center, energia renovável, hidrogênio verde, biocombustíveis e siderurgia de baixo carbono. A previsão oficial é de aproximadamente 10 mil empregos diretos durante a implantação dos empreendimentos e outros postos na fase de operação, além de novas exportações estimadas em R$ 40 bilhões por ano a partir de 2029.

Para moradores do Norte e Nordeste, a notícia vai muito além de números bilionários. Ela mostra como recursos naturais, energia renovável, localização estratégica e infraestrutura de exportação podem ser utilizados para atrair indústrias de maior valor agregado. A questão que começa a surgir é quanto desses investimentos poderá efetivamente permanecer nas economias locais, quais profissões serão mais procuradas e se os projetos conseguirão transformar grandes obras em oportunidades permanentes para trabalhadores, fornecedores e empreendedores das regiões.

Por que Ceará, Maranhão e Piauí estão atraindo investimentos tão grandes?

Os novos projetos estão concentrados em três Zonas de Processamento de Exportação, conhecidas como ZPEs, localizadas em Pecém, no Ceará, Bacabeira, no Maranhão, e Parnaíba, no Piauí. O modelo oferece benefícios tributários, administrativos e cambiais para empresas voltadas principalmente ao comércio exterior e tem entre seus objetivos declarados a difusão tecnológica, a redução dos desequilíbrios regionais e o desenvolvimento econômico. O próprio Ministério do Desenvolvimento, Indústria, Comércio e Serviços considera Norte, Nordeste e Centro-Oeste regiões prioritárias para esse tipo de política.

No Ceará, o maior projeto aprovado é um novo data center associado à Voltalia Energia do Brasil, com investimento estimado em R$ 181,7 bilhões. A estrutura deverá ser acompanhada pela expansão de usinas eólicas e solares para atender à demanda de energia e pela utilização de água de reuso no sistema de refrigeração. A previsão é de 2.300 empregos diretos durante a implantação e 400 na operação, conectando a economia digital à matriz energética renovável que já se tornou uma das principais vantagens competitivas do Nordeste.

O Maranhão aparece com uma combinação diferente de atividades. Em Bacabeira, foram aprovados projetos de R$ 2,7 bilhões para uma biorrefinaria de biomassa de bambu, R$ 2 bilhões para produção de hidrogênio verde incorporado a e-metanol e R$ 18,5 bilhões para fabricação de ferro-esponja verde. Juntos, esses empreendimentos estimam 10 mil empregos diretos durante a implantação e outros 550 na operação. No Piauí, a HyMetalx recebeu aprovação para investir R$ 1,1 bilhão na produção de ferro-gusa verde, utilizando hidrogênio produzido com eletricidade renovável, com previsão de 605 empregos diretos.

Que oportunidades os novos projetos podem criar para trabalhadores e empresas?

O primeiro impacto tende a aparecer durante a construção das plantas, quando surgem demandas por profissionais de engenharia, construção civil, montagem industrial, logística, eletricidade, mecânica, segurança e serviços especializados. O desafio regional será fazer com que parte relevante dessas vagas seja ocupada por trabalhadores locais. Para isso, governos estaduais, instituições de ensino, Sistema S e empresas precisarão antecipar a formação profissional, especialmente em áreas técnicas relacionadas à energia, automação, tecnologia da informação e manutenção industrial.

A oportunidade também alcança pequenos negócios. Grandes empreendimentos precisam de alimentação, transporte, hospedagem, manutenção, limpeza, segurança, locação de equipamentos, serviços técnicos e diversos insumos. Quando fornecedores locais conseguem atender aos padrões exigidos pelas empresas, uma parte do investimento pode circular dentro da própria região. Esse efeito é especialmente importante porque permite que o impacto econômico não fique restrito ao número de trabalhadores contratados diretamente pelas fábricas e instalações.

No caso do data center previsto para Pecém, por exemplo, a demanda não se limita aos profissionais que trabalharão dentro da estrutura. Um empreendimento desse porte depende de energia, conectividade, segurança digital, refrigeração, manutenção e serviços especializados. Isso pode estimular empresas de tecnologia e startups do Ceará e de outros estados nordestinos a desenvolver soluções para uma cadeia produtiva que tende a ganhar importância com a expansão da inteligência artificial e da computação em nuvem. A presença de infraestrutura digital de grande escala também pode aumentar a atratividade regional para outros investimentos tecnológicos.

Há ainda uma oportunidade ligada à exportação de produtos de maior valor agregado. O Ministério do Desenvolvimento estima que os cinco projetos aprovados poderão contribuir para novas exportações de aproximadamente R$ 40 bilhões anuais a partir de 2029. Em vez de limitar a participação do Nordeste ao fornecimento de matérias-primas, a estratégia busca ampliar a transformação industrial dentro do território regional, agregando tecnologia e processamento aos recursos disponíveis.

O que precisa acontecer para o investimento virar desenvolvimento regional?

O tamanho dos anúncios não garante, sozinho, desenvolvimento econômico. A experiência das ZPEs mostra que existe uma diferença importante entre um projeto aprovado, uma obra em implantação e uma unidade efetivamente produzindo e exportando. Segundo o MDIC, o Brasil possui 13 ZPEs criadas, quatro delas ativas, enquanto outras estão em diferentes estágios de implantação. A política já reúne 30 novos projetos aprovados e R$ 637 bilhões em investimentos previstos, o que mostra a dimensão da carteira, mas também reforça a necessidade de acompanhar a execução de cada empreendimento.

Para Ceará, Maranhão e Piauí, infraestrutura será um dos fatores decisivos. Grandes projetos industriais exigem estradas, portos, transmissão de energia, abastecimento hídrico, telecomunicações e mão de obra qualificada. Também será necessário garantir que a expansão econômica respeite critérios ambientais, principalmente em empreendimentos que utilizarão grandes quantidades de energia e estruturas de processamento. No caso do data center do Ceará, o projeto já prevê energia eólica e solar e uso de água de reuso para refrigeração, enquanto os empreendimentos do Maranhão e Piauí estão associados a processos de descarbonização.

Outro ponto relevante é a capacidade de integrar universidades, centros de pesquisa e empresas locais aos novos investimentos. A política das ZPEs tem entre seus objetivos justamente a difusão tecnológica e a redução dos desequilíbrios regionais, e os benefícios podem ser maiores quando a implantação cria conhecimento e fornecedores que permanecem depois da conclusão das obras.

Nos próximos anos, a atenção deverá se concentrar menos no valor anunciado e mais na execução dos projetos, na abertura das vagas e na formação dos trabalhadores que poderão ocupá-las. Se os investimentos avançarem conforme planejado, Ceará, Maranhão e Piauí poderão fortalecer posições estratégicas em inteligência artificial, energia renovável, hidrogênio verde, biocombustíveis e siderurgia sustentável. Para a população, o principal ganho esperado é a criação de uma cadeia econômica capaz de gerar empregos qualificados, novos negócios e maior arrecadação ao longo do tempo. O resultado mais importante, porém, será saber se a riqueza produzida conseguirá permanecer nas cidades e estados envolvidos, criando oportunidades duradouras para trabalhadores e empreendedores do Norte e Nordeste.

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