R$ 150 milhões em inovação: por que empresas do Norte e Nordeste devem ficar de olho no novo ciclo de apoio à tecnologia

Luca Montari
Luca Montari
R$ 150 milhões em inovação: por que empresas do Norte e Nordeste devem ficar de olho no novo ciclo de apoio à tecnologia

Recursos para projetos inovadores ampliam as oportunidades para startups e empresas de tecnologia e podem ajudar a fortalecer ecossistemas regionais.

A corrida por investimentos em tecnologia ganhou uma oportunidade importante para empresas das regiões Norte e Nordeste. Uma chamada pública da Finep prevê recursos específicos para projetos desenvolvidos nessas regiões, dentro de uma estratégia que busca reduzir a concentração dos investimentos em ciência, tecnologia e inovação nos grandes centros econômicos do país. O movimento ocorre em um momento em que inteligência artificial, digitalização, conectividade e novas soluções para setores como agronegócio, saúde e serviços públicos começam a ganhar espaço também nos mercados regionais. Segundo documentos da própria Finep, mecanismos de regionalização passaram a ter peso maior nas políticas de inovação, com reserva de recursos e critérios específicos para projetos localizados no Norte, Nordeste e Centro-Oeste. (Finep)

A oportunidade interessa não apenas a startups. Pequenas e médias empresas, universidades, instituições de pesquisa e negócios que desenvolvem produtos ou processos tecnológicos podem participar de diferentes formas, dependendo das regras de cada chamada. Para o Norte e Nordeste, o impacto potencial vai além do dinheiro disponível: projetos aprovados podem gerar empregos qualificados, estimular fornecedores locais e aproximar empresas de centros de pesquisa. A questão que começa a ganhar importância é justamente esta: como transformar os recursos destinados à inovação em crescimento econômico efetivo nas duas regiões?

Como os recursos para tecnologia podem beneficiar Norte e Nordeste?

Um dos principais pontos da atual política de inovação é a tentativa de distribuir melhor os recursos públicos destinados ao desenvolvimento tecnológico. Em uma chamada da Finep com prazo de submissão até 31 de agosto de 2026, estão previstos R$ 150 milhões em recursos, sendo R$ 45 milhões reservados para Norte, Nordeste e Centro-Oeste. Os valores fazem parte de uma política de subvenção econômica, modalidade que pode utilizar recursos não reembolsáveis para apoiar empresas em atividades de pesquisa, desenvolvimento e inovação. (Finep)

Na prática, isso significa que uma empresa localizada em uma das regiões contempladas pode encontrar uma oportunidade para transformar uma ideia tecnológica em produto ou serviço. O benefício potencial aparece em várias etapas, desde o desenvolvimento de protótipos até a validação de soluções e a chegada ao mercado. Para uma startup de Belém, Recife, Fortaleza, Salvador, Manaus ou Teresina, por exemplo, um projeto apoiado pode significar capacidade para contratar profissionais especializados, adquirir equipamentos, realizar testes e estabelecer parcerias com universidades. O efeito econômico pode alcançar empresas que nem sequer participam diretamente do projeto, por meio da criação de uma cadeia local de fornecedores.

A regionalização também enfrenta um problema histórico do ecossistema brasileiro de inovação. A concentração de empresas de tecnologia, investidores, pesquisadores e infraestrutura científica em determinados estados dificulta que outras regiões transformem conhecimento em negócios. Relatório da Finep mostra que, em 2025, a participação das regiões Norte, Nordeste e Centro-Oeste nos recursos de subvenção ainda era inferior à meta de 30%, embora novas regras tenham sido estruturadas para ampliar essa presença. O documento também destaca a previsão de chamadas específicas para essas regiões e mecanismos de pontuação adicional para projetos desenvolvidos localmente. (Finep)

Quais áreas podem ganhar força com a expansão da inovação regional?

O potencial de impacto não está restrito ao desenvolvimento de aplicativos ou softwares. No Nordeste, a tecnologia pode ser aplicada a setores que possuem peso direto na economia regional, como agricultura, energia, indústria, turismo e serviços. O Banco do Nordeste já identificou, por exemplo, avanço no uso de irrigação, mecanização e insumos biológicos na produção agrícola, mostrando como a adoção tecnológica pode aumentar produtividade e reduzir custos no campo. Esse processo cria espaço para empresas capazes de desenvolver sensores, sistemas de monitoramento, ferramentas de inteligência artificial e soluções de gestão voltadas às características locais. (Cultura BNB)

No Norte, os desafios são diferentes, mas também podem estimular inovação. Logística, conectividade, monitoramento ambiental, saúde remota e serviços digitais estão entre os segmentos que podem se beneficiar de soluções adaptadas às grandes distâncias e às características geográficas da região. A tecnologia, nesse contexto, deixa de ser apenas uma atividade econômica e passa a funcionar como infraestrutura para ampliar o acesso a serviços. Uma plataforma digital de atendimento médico, por exemplo, pode ter impacto diferente em uma capital nordestina e em uma comunidade distante de um grande centro amazônico, mas ambas dependem de conectividade e soluções adequadas para funcionar.

A inteligência artificial aparece como uma das áreas com maior potencial de transformação. No Nordeste, governos estaduais, universidades e empresas já articulam a criação do Centro de Inteligência Artificial do Nordeste, iniciativa envolvendo o Consórcio Nordeste e a Dataprev, com participação tecnológica da Huawei. A proposta busca aproximar infraestrutura, conhecimento acadêmico e aplicações de inteligência artificial, fortalecendo a capacidade regional de desenvolver soluções próprias. (Consórcio Nordeste)

Esse movimento pode produzir efeitos em educação, saúde, indústria e administração pública. Uma das oportunidades é fazer com que profissionais formados na própria região encontrem empregos qualificados sem precisar migrar para os grandes polos tecnológicos do país. Para isso, entretanto, será necessário combinar investimento financeiro com formação profissional, infraestrutura digital e acesso a laboratórios. Sem essa combinação, o risco é a região receber projetos tecnológicos sem construir uma cadeia permanente de conhecimento e negócios ao redor deles.

O que empresas e profissionais do Norte e Nordeste precisam observar agora?

Para empresas interessadas em captar recursos para inovação, o primeiro passo é compreender que financiamento tecnológico não funciona como uma simples linha de crédito. Projetos precisam apresentar objetivos claros, capacidade de execução e uma proposta que demonstre como a inovação será desenvolvida e aplicada. A existência de recursos reservados regionalmente aumenta a oportunidade, mas também tende a elevar a importância de bons projetos, equipes preparadas e parcerias com instituições científicas e tecnológicas.

Universidades e institutos de pesquisa podem ter papel decisivo nesse processo. A aproximação entre pesquisadores e empresas permite transformar estudos acadêmicos em produtos, serviços e processos comercialmente viáveis. Para o Norte e Nordeste, esse vínculo é especialmente relevante porque pode ajudar a criar soluções adaptadas a problemas regionais, em vez de simplesmente importar tecnologias desenvolvidas para outras realidades. Também pode abrir portas para estudantes e pesquisadores, ampliando oportunidades de estágio, bolsas, empregos e empreendedorismo científico.

Outro ponto importante é que a inovação regional precisa alcançar empresas de diferentes tamanhos. Um pequeno negócio que desenvolve uma ferramenta para monitorar lavouras, uma solução de logística para cidades amazônicas ou uma plataforma de turismo pode gerar impacto local mesmo sem se transformar imediatamente em uma grande empresa nacional. Programas de apoio, incubadoras, parques tecnológicos e fundos de investimento podem ajudar essas iniciativas a atravessar a fase inicial, quando muitos projetos ainda enfrentam dificuldades para transformar conhecimento em receita.

O cenário também pode favorecer novos profissionais. A expansão da inteligência artificial, computação em nuvem, análise de dados, automação e segurança digital tende a aumentar a procura por competências tecnológicas. Isso cria uma oportunidade para jovens do Norte e Nordeste, desde que a formação acompanhe as necessidades das empresas. O próprio MCTI mantém iniciativas relacionadas à educação digital e ao desenvolvimento de ciência, tecnologia e inovação, enquanto programas de financiamento buscam aproximar empresas e instituições de pesquisa. (Serviços e Informações do Brasil)

Nos próximos meses, a capacidade de transformar esses recursos em projetos concretos será determinante. O desafio não será apenas captar dinheiro, mas criar um ambiente em que empresas consigam contratar profissionais, universidades participem das soluções e governos ofereçam infraestrutura adequada. Se essa conexão avançar, Norte e Nordeste poderão ampliar sua participação na economia digital brasileira e criar novos polos de inovação fora do eixo tradicional. A tendência é que inteligência artificial, conectividade, tecnologia agrícola, energia e serviços digitais estejam entre os setores com maior espaço para crescimento. O resultado mais relevante, porém, será medido pela capacidade de transformar inovação em produtividade, empregos qualificados e novas oportunidades econômicas para a população regional.

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