Nordeste concentra as dez cidades mais violentas do país, aponta novo anuário

Diego Velázquez
Diego Velázquez

Levantamento do Fórum Brasileiro de Segurança Pública mostra que a região registra a maior taxa de mortes violentas do Brasil, mesmo com queda nacional nos índices

O Fórum Brasileiro de Segurança Pública (FBSP) divulgou, no fim de julho, a 20ª edição do Anuário Brasileiro de Segurança Pública, com dados referentes a 2025. O documento revelou um retrato contraditório do país: enquanto a taxa nacional de mortes violentas intencionais (MVI) caiu para 19,1 casos a cada 100 mil habitantes, o menor patamar da série histórica, a Região Nordeste segue muito acima dessa média, com 31,6 mortes por 100 mil habitantes.

O ponto que mais chamou atenção no levantamento foi a constatação de que as dez cidades brasileiras com mais de 100 mil habitantes e as maiores taxas de mortes violentas do país estão todas localizadas no Nordeste. Cinco municípios pertencem à Bahia, três ao Ceará, um a Pernambuco e um à Paraíba. A liderança do ranking segue com Maranguape, no Ceará, que teve 100,3 mortes violentas intencionais para cada 100 mil moradores, alta em relação às 80 mortes por 100 mil registradas no ano anterior.

O que explica a concentração de violência na região

Especialistas ouvidos por veículos que acompanham o setor de segurança pública associam o fenômeno à migração de facções criminosas originadas no Sudeste, como o Comando Vermelho e o PCC, em busca de novas rotas de tráfico e de território para expansão. Cidades cortadas por rodovias federais, situadas perto de portos ou aeroportos, e com forte fluxo turístico, aparecem como as mais vulneráveis a esse tipo de disputa.

Na lista das dez cidades mais violentas, aparecem municípios como Eunápolis e Porto Seguro, na Bahia, que já enfrentam histórico de conflitos entre grupos criminosos rivais pelo controle de pontos de venda de drogas e de áreas estratégicas para logística. O padrão se repete em cidades cearenses e pernambucanas incluídas no ranking, onde a presença de rodovias e a proximidade com centros urbanos maiores facilitam a movimentação de armas e drogas.

No recorte por estados, o Amapá segue como a unidade federativa mais violenta do país, com taxa de 42,5 mortes por 100 mil habitantes, mesmo após uma redução de 6% em relação ao ano anterior. Já Santa Catarina aparece na ponta oposta, com a menor taxa de mortes violentas do Brasil.

Feminicídios batem recorde apesar da queda geral

Um dos dados mais preocupantes do anuário é o aumento dos casos de feminicídio, que atingiram novo recorde histórico em 2025, mesmo com a redução geral das mortes violentas no país. O levantamento também identificou alta em outros indicadores relacionados à violência contra a mulher, como perseguição (stalking), que cresceu 30%, descumprimento de medida protetiva, com aumento de 17%, e ameaças.

Segundo o FBSP, para cada feminicídio consumado no Brasil em 2025, houve três tentativas registradas pelas polícias estaduais. O órgão avalia que a queda nas mortes violentas em geral não deve ser interpretada como sinal de que a segurança da mulher também melhorou, já que os dois indicadores seguem trajetórias distintas.

A leitura dos dados também aponta um recorde na letalidade policial, com aumento no número de mortes decorrentes de intervenção de agentes de segurança em serviço, uma categoria que integra o cálculo das mortes violentas intencionais junto a homicídios dolosos, latrocínios e lesões corporais seguidas de morte.

Impacto para a gestão pública e resposta dos estados

A concentração de violência em estados governados pelo mesmo partido político no Nordeste tem gerado pressão sobre gestões estaduais e sobre o governo federal, que aposta na tramitação da PEC da Segurança Pública, atualmente em análise no Senado, como parte da resposta ao problema. A proposta busca reorganizar o financiamento e a integração entre as forças de segurança em todo o país.

Alguns municípios, no entanto, mostram que é possível reverter a tendência regional. Vitória da Conquista, na Bahia, ficou de fora do ranking das cidades mais violentas e registrou taxa inferior a 9 mortes por 100 mil habitantes em 2025, abaixo das médias nordestina e nacional. A prefeitura atribui o resultado ao fortalecimento da guarda municipal, integrada ao Sistema Único de Segurança Pública desde 2021.

Já a Bahia, no nível estadual, reporta redução de 20% nos homicídios no primeiro semestre de 2026, atribuída ao reforço do policiamento orientado por inteligência e ao aumento no número de operações contra facções, prisões e apreensão de armas de fogo.

Para especialistas em segurança pública, o desafio segue sendo reduzir as disparidades regionais dentro do próprio Nordeste, garantindo que municípios do interior, muitas vezes com menos recursos e efetivo policial reduzido, recebam a mesma atenção destinada às capitais na hora de enfrentar o crime organizado.

Fontes consultadas:
Fórum Brasileiro de Segurança Pública
G1
CNN Brasil
Agência Brasil

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