A crescente cobrança por gestão eficiente de resíduos coloca a coleta seletiva no centro do debate, e Marcello José Abbud, empresário e especialista em soluções ambientais, examina por que esse instrumento, apesar de amplamente difundido como conceito, fracassa na prática em grande parte dos municípios brasileiros. A coleta seletiva é a porta de entrada de todo o sistema de reciclagem: sem a separação adequada na origem e o recolhimento diferenciado dos materiais, a infraestrutura subsequente de triagem e reciclagem opera com eficiência drasticamente reduzida.
Os números expõem a fragilidade. Apenas uma fração dos municípios brasileiros mantém programas de coleta seletiva efetivamente operantes, e mesmo entre os que possuem, muitos cobrem parcela mínima do território ou registram índices baixos de recuperação. O conceito é consensual, mas sua execução revela uma complexidade que costuma ser subestimada no planejamento.
Por que a coleta seletiva não basta ser implantada?
Implantar a coleta seletiva é relativamente simples; mantê-la funcionando com eficiência é o verdadeiro desafio. Muitos programas nascem com forte mobilização inicial e definham por falta de continuidade, de recursos ou de articulação entre suas etapas. Caminhões de coleta diferenciada que não cumprem roteiros regulares frustram a participação do morador que separou corretamente seus resíduos, gerando descrédito que mina o programa a partir da própria população engajada.
Conforme aponta Marcello José Abbud, a coleta seletiva é um sistema que depende do funcionamento simultâneo de várias engrenagens: separação na fonte, coleta diferenciada confiável, triagem com destino para os materiais e mercado consumidor para os recicláveis. A falha em qualquer um desses elos compromete o conjunto, e é justamente a desarticulação entre essas etapas que explica a maioria dos fracassos observados.
O papel decisivo do comportamento da população
Nenhum sistema de coleta seletiva funciona sem a adesão consistente dos moradores, que decidem o destino imediato de cada resíduo em casa. A separação correta na fonte determina a qualidade do material que chega às centrais de triagem, e material mal separado ou contaminado perde valor e frequentemente acaba descartado, mesmo após coletado seletivamente. O comportamento individual, multiplicado por milhares de domicílios, define o resultado coletivo.

Na avaliação de Marcello José Abbud, esse comportamento responde diretamente a três fatores: informação clara sobre como separar, confiança de que o material separado terá destino adequado e facilidade prática para participar. Programas que investem em educação ambiental continuada, sinalização acessível e regularidade na coleta registram taxas de adesão muito superiores, demonstrando que o engajamento da população se constrói e se mantém, não surge espontaneamente.
Coleta seletiva e inclusão de catadores
Um modelo de coleta seletiva que ignora os catadores desperdiça uma estrutura já existente e socialmente relevante. A legislação brasileira prevê a integração de cooperativas de catadores aos programas municipais, permitindo inclusive sua contratação direta pelo poder público. Quando bem articulada, essa integração combina eficiência ambiental e inclusão produtiva, gerando renda digna para trabalhadores que já atuam na recuperação de materiais.
Em complemento, Marcello José Abbud observa que municípios que formalizaram parcerias com cooperativas tendem a registrar melhores resultados tanto na recuperação de recicláveis quanto na geração de trabalho. A experiência acumulada dos catadores na separação e classificação dos materiais agrega qualidade ao processo, e sua organização em estruturas formais oferece ao município um parceiro operacional com conhecimento prático que dificilmente seria reproduzido do zero.
O que diferencia os programas bem-sucedidos?
Os programas de coleta seletiva que prosperam compartilham características identificáveis. Eles tratam a iniciativa como política permanente, e não como campanha pontual, garantindo continuidade por meio das trocas de gestão. Investem em comunicação constante com a população, mantêm regularidade rigorosa na coleta, estruturam destino confiável para os materiais e articulam todas as etapas de forma integrada, com indicadores que permitem monitorar e corrigir falhas.
Diante desse cenário, Marcello José Abbud sinaliza que o sucesso da coleta seletiva é menos uma questão de tecnologia e mais de gestão e constância. Os recursos técnicos necessários são modestos e amplamente disponíveis; o que falta, na maioria dos casos, é o compromisso de longo prazo e a competência administrativa para manter o sistema funcionando de forma confiável ano após ano, conquistando e preservando a confiança da população que o sustenta.
Autor: Diego Rodríguez Velázquez

