Governo avalia infraestrutura de inteligência artificial que pode aproximar o Nordeste de centros estratégicos de pesquisa, inovação e economia digital.
A inteligência artificial entrou em uma nova etapa no Brasil, e o próximo avanço pode ter impacto direto no mapa tecnológico do país. O governo federal avalia a aquisição de dois supercomputadores voltados ao desenvolvimento de inteligência artificial, com investimento superior a R$ 2 bilhões, segundo informações divulgadas nesta semana. Uma das possibilidades em discussão é instalar parte dessa infraestrutura no Nordeste, o que colocaria a região no centro de uma disputa por pesquisa, formação profissional e novos negócios digitais.
A discussão é importante porque um supercomputador não representa apenas uma máquina mais potente. Ele pode sustentar pesquisas em saúde, agricultura, clima, energia, segurança, indústria e serviços públicos, além de criar demanda por profissionais especializados. O Plano Brasileiro de Inteligência Artificial, coordenado pelo Ministério da Ciência, Tecnologia e Inovação, prevê até R$ 23 bilhões em investimentos até 2028 e estabelece como objetivo ampliar a infraestrutura computacional e a formação de trabalhadores. Para Norte e Nordeste, a questão central passa a ser outra: como transformar esse investimento em desenvolvimento regional?
Por que um supercomputador de inteligência artificial pode ser importante para o Nordeste?
A localização de uma infraestrutura avançada de computação pode produzir efeitos que vão muito além do setor de tecnologia. Universidades, empresas, centros de pesquisa e órgãos públicos passam a ter acesso a uma capacidade maior de processamento, permitindo desenvolver projetos que seriam caros ou demorados em estruturas convencionais. No Nordeste, isso pode favorecer pesquisas relacionadas a problemas particularmente relevantes para a região, como escassez hídrica, agricultura em áreas semiáridas, energias renováveis, mudanças climáticas, logística e saúde pública. O próprio PBIA estabelece a infraestrutura de alto desempenho como uma das bases para ampliar o desenvolvimento de inteligência artificial no país.
A região também já possui exemplos que mostram que a capacidade tecnológica não precisa ficar concentrada no eixo Rio-São Paulo. Em junho, a Universidade Federal de Campina Grande, na Paraíba, recebeu um supercomputador capaz de realizar mais de 14,7 quatrilhões de operações matemáticas por segundo, destinado a aplicações de inteligência artificial e projetos do SmartCampus. O equipamento demonstra que universidades nordestinas já participam da expansão da computação de alto desempenho. Uma estrutura nacional de maior escala poderia ampliar essa capacidade e estimular conexões entre universidades, startups e empresas.
Esse movimento também pode fortalecer áreas nas quais o Nordeste já apresenta vantagens competitivas. O Ceará, por exemplo, possui infraestrutura internacional de cabos submarinos e vem sendo apontado como território estratégico para investimentos em data centers, justamente pela conexão com redes globais de dados e pela localização geográfica. Documento da Empresa de Tecnologia da Informação do Ceará destaca ainda a existência de mais de 400 startups mapeadas e investimentos recentes relacionados ao ecossistema de inovação estadual. A combinação entre conectividade, energia renovável, universidades e infraestrutura computacional pode aumentar a atratividade regional para novos projetos.
Quais empregos e oportunidades podem surgir com a expansão da IA?
A instalação de grandes estruturas de computação pode gerar empregos diretamente ligados à tecnologia, mas o efeito econômico potencial é mais amplo. São necessários profissionais de engenharia, ciência de dados, inteligência artificial, segurança cibernética, redes, energia, manutenção, gestão de infraestrutura e pesquisa. Ao redor desses projetos também podem surgir empresas especializadas em software, serviços digitais, consultoria, treinamento e soluções para setores tradicionais da economia. Para jovens que vivem no Nordeste, isso significa que a expansão da IA pode criar novas possibilidades de carreira sem exigir, necessariamente, uma mudança permanente para os grandes centros do Sudeste.
A formação profissional será, entretanto, decisiva. O governo já trabalha com programas de capacitação ligados ao desenvolvimento de IA, enquanto o PBIA estabelece a formação e a requalificação de pessoas como um dos seus eixos. O desafio regional é fazer com que universidades, institutos federais, escolas técnicas e empresas acompanhem a demanda. Sem profissionais qualificados, parte do valor econômico de uma grande infraestrutura tecnológica pode acabar sendo capturada por empresas e trabalhadores de outras regiões.
Para empreendedores, a oportunidade também está na criação de soluções específicas para problemas locais. Uma startup nordestina pode desenvolver sistemas de inteligência artificial para previsão de produção agrícola, gerenciamento de água, diagnóstico apoiado por dados, turismo personalizado, manutenção de equipamentos de energia solar ou otimização logística. O Banco do Nordeste já mantém instrumentos voltados ao financiamento de empresas inovadoras. Um fundo de capital semente criado com BNB, Finep e Sebrae dispõe de R$ 120 milhões e pode investir até R$ 6 milhões em determinadas startups instaladas em sua área de atuação, incluindo negócios de tecnologia, educação, saúde, energias renováveis, biotecnologia, agronegócio e segurança cibernética.
O que precisa acontecer para a tecnologia virar desenvolvimento regional?
O primeiro desafio é evitar que uma grande infraestrutura seja instalada na região sem produzir uma cadeia econômica local. Um data center ou supercomputador pode movimentar investimentos expressivos, mas o impacto regional será maior se houver contratação de mão de obra local, parcerias com universidades, programas de formação e estímulo a fornecedores. Também será necessário garantir energia confiável, conectividade de alta capacidade e condições adequadas para pesquisa. A estratégia precisa combinar infraestrutura física e digital com políticas de educação e inovação.
A experiência nordestina mostra que essa integração é possível, mas exige continuidade. A Sudene mantém o Data Nordeste, plataforma que reúne informações sobre economia, infraestrutura, educação, saúde, desenvolvimento social e outros indicadores regionais, além de ferramentas de inteligência geográfica para apoiar decisões relacionadas ao desenvolvimento. Dados desse tipo podem inclusive ser utilizados para criar soluções de inteligência artificial voltadas às necessidades específicas dos municípios nordestinos.
Nos próximos meses, a definição sobre a localização e o modelo de implantação dos supercomputadores será acompanhada com atenção porque poderá influenciar a distribuição territorial da infraestrutura de IA brasileira. O PBIA prevê uma máquina de alta capacidade e estabelece como meta colocar o Brasil entre os países com infraestrutura computacional de ponta, utilizando também energia renovável. Se o Nordeste conseguir combinar essa oportunidade com universidades fortes, conectividade, energia competitiva, formação profissional e financiamento para startups, a região poderá deixar de ser apenas consumidora de tecnologia e assumir papel maior na produção de soluções de inteligência artificial. O principal ganho, nesse cenário, seria transformar poder computacional em conhecimento, empregos qualificados, empresas inovadoras e desenvolvimento econômico regional.
- Ministério da Ciência, Tecnologia e Inovação (MCTI) – Plano Brasileiro de Inteligência Artificial
- MCTI – Plano Brasileiro de IA, infraestrutura de supercomputação e redução das desigualdades regionais
- UFCG – Supercomputador para aplicações de Inteligência Artificial
- Banco do Nordeste – Fundo Capital Semente para startups
- Folha de S.Paulo – Governo prevê mais de R$ 2 bilhões em dois supercomputadores de IA
- Paraíba Business – Investimento de mais de R$ 2 bilhões em supercomputadores de IA
- NE9 – Rio Grande do Norte disputa infraestrutura de supercomputação
