Programa do CNPq permite que startups e pequenas empresas desenvolvam projetos de inteligência artificial com mestres e doutores.
A inteligência artificial começa a ganhar uma nova porta de entrada nas empresas do Norte e Nordeste. Uma chamada pública do Conselho Nacional de Desenvolvimento Científico e Tecnológico, CNPq, em parceria com o Ministério da Ciência, Tecnologia e Inovação, prevê apoio para startups e empresas de pequeno e médio porte que desenvolvam projetos de pesquisa, desenvolvimento e inovação em IA. O programa RHAE IA estabelece que pelo menos 30% dos investimentos sejam destinados a projetos das regiões Norte, Nordeste e Centro-Oeste, criando uma oportunidade concreta para reduzir a concentração de pesquisadores e negócios tecnológicos nos grandes centros do país. As inscrições permanecem abertas até 9 de outubro de 2026. CNPq: chamada RHAE IA 2026
A novidade interessa especialmente a empresas regionais que já possuem uma solução tecnológica, mas ainda não têm equipe científica suficiente para transformar pesquisa em produto. O programa pode financiar bolsas para inserir mestres e doutores diretamente nesses negócios por até 30 meses, aproximando universidades, pesquisadores e mercado. Para Norte e Nordeste, a dúvida mais importante é como essa oportunidade pode ajudar a criar tecnologia desenvolvida na própria região, gerar empregos qualificados e fazer com que problemas locais se transformem em soluções capazes de alcançar outros mercados.
Como o programa de inteligência artificial pode beneficiar empresas do Norte e Nordeste?
A chamada RHAE IA foi estruturada para apoiar projetos de pesquisa, desenvolvimento e inovação em inteligência artificial dentro de empresas inovadoras e startups. Cada proposta pode solicitar até R$ 300 mil em bolsas de fomento tecnológico do CNPq, enquanto a empresa participante precisa apresentar uma contrapartida mínima equivalente a 20% do valor do projeto. O apoio pode durar até 30 meses, período suficiente para que uma pesquisa avance da fase experimental para o desenvolvimento de um produto, serviço ou processo aplicável ao mercado. CNPq: regras da chamada RHAE IA
A reserva de pelo menos 30% dos investimentos para Norte, Nordeste e Centro-Oeste é o ponto que transforma uma chamada nacional em uma oportunidade relevante para o desenvolvimento regional. Em vez de concentrar todo o esforço de inovação nas regiões que tradicionalmente possuem maior número de empresas de tecnologia e centros de pesquisa, o programa cria um mecanismo para estimular projetos fora desse eixo. Isso pode favorecer negócios que trabalham com problemas específicos da Amazônia, do Semiárido e dos grandes centros urbanos nordestinos, desde logística e agricultura até saúde, educação, energia e serviços financeiros.
Na prática, uma startup do Nordeste que desenvolve inteligência artificial para prever problemas em lavouras pode utilizar pesquisadores para melhorar seus modelos e transformar o protótipo em uma solução comercial. No Norte, uma empresa poderia desenvolver sistemas de análise de dados para logística, monitoramento ambiental ou atendimento remoto em regiões de difícil acesso. A vantagem está justamente na possibilidade de combinar conhecimento acadêmico com necessidades que surgem no cotidiano regional, criando tecnologias adaptadas a condições que muitas soluções produzidas fora da região não consideram.
O programa também pode ajudar a mudar o perfil do mercado de trabalho tecnológico. Mestres e doutores que normalmente seguiriam uma trajetória exclusivamente acadêmica passam a ter uma oportunidade de atuar diretamente em empresas, enquanto os negócios recebem conhecimento especializado sem precisar montar imediatamente uma grande estrutura própria de pesquisa. O CNPq explica que o RHAE busca justamente ampliar a inserção desses profissionais em projetos empresariais e fortalecer a interação entre pesquisa aplicada e desenvolvimento tecnológico. Programa RHAE IA no CNPq
Quais setores regionais podem usar inteligência artificial para crescer?
Um dos maiores potenciais está no agronegócio, setor que possui características muito diferentes entre Norte e Nordeste. No Semiárido, sistemas de IA podem apoiar previsão de produtividade, irrigação, identificação de doenças e uso mais eficiente de água. Na Amazônia, aplicações podem ser direcionadas à logística, rastreabilidade de cadeias produtivas, monitoramento territorial e análise de grandes volumes de dados ambientais. Quanto mais a tecnologia for adaptada às condições locais, maior será a possibilidade de gerar ganhos econômicos para produtores e empresas da região.
Saúde e educação também aparecem como áreas com potencial de aplicação. Ferramentas de inteligência artificial podem auxiliar na organização de informações, identificação de padrões, apoio à gestão e desenvolvimento de soluções digitais, desde que utilizadas com supervisão profissional, proteção de dados e critérios de segurança. Para municípios menores, tecnologias desse tipo podem ser especialmente interessantes quando combinadas com conectividade e serviços remotos, ajudando a reduzir parte das dificuldades provocadas pela distância em relação aos grandes centros especializados.
A energia é outro campo estratégico. Norte e Nordeste possuem forte presença de projetos de geração renovável, especialmente solar e eólica, e empresas podem desenvolver sistemas capazes de prever demanda, identificar falhas, otimizar manutenção e melhorar a operação de redes e equipamentos. A inteligência artificial, nesse caso, não precisa significar a criação de um aplicativo para o consumidor. Ela também pode atuar nos bastidores de setores tradicionais, aumentando produtividade e criando demanda por profissionais de tecnologia dentro de cadeias econômicas que já existem na região.
Existe ainda uma oportunidade para startups que desenvolvem soluções voltadas a pequenos negócios. Sistemas de análise de vendas, atendimento automatizado, previsão de demanda, gestão financeira e personalização de serviços podem ajudar micro e pequenas empresas a competir em mercados cada vez mais digitais. O desafio será garantir que a inovação não fique restrita às capitais, porque a verdadeira transformação regional dependerá da capacidade de levar conhecimento, infraestrutura e serviços tecnológicos também para cidades médias e municípios do interior.
O que falta para a inteligência artificial virar emprego e desenvolvimento regional?
O dinheiro para pesquisa é importante, mas não é suficiente para criar um ecossistema tecnológico forte. Uma empresa precisa de internet de qualidade, energia confiável, profissionais capacitados, acesso a universidades, capacidade de gestão e clientes dispostos a testar novas soluções. Por isso, a chamada do CNPq deve ser vista como parte de uma cadeia maior de políticas públicas, na qual financiamento, formação profissional e infraestrutura digital precisam avançar juntos.
A própria estratégia do programa mostra essa preocupação ao priorizar projetos alinhados ao Plano Brasileiro de Inteligência Artificial, à Nova Indústria Brasil e à Estratégia Nacional de Economia de Impacto. Também são considerados prioritários projetos que envolvam negócios de impacto socioambiental e empresas lideradas por mulheres. Isso amplia o potencial da chamada porque permite que a inteligência artificial seja utilizada não apenas para aumentar eficiência empresarial, mas também para enfrentar desafios sociais e ambientais. Chamada oficial do CNPq para submissão de projetos
Para Norte e Nordeste, o desafio seguinte será transformar a oportunidade em capacidade permanente. Se uma startup contratar pesquisadores por meio do programa, desenvolver uma tecnologia e conquistar clientes, o resultado poderá continuar gerando empregos depois do encerramento das bolsas. Da mesma forma, se universidades e empresas estabelecerem relações duradouras, novos projetos poderão surgir a partir da experiência adquirida. O efeito mais importante, portanto, não será apenas o número de bolsas concedidas, mas a criação de empresas capazes de continuar pesquisando, contratando e inovando.
As inscrições seguem abertas até 9 de outubro, e as empresas interessadas precisam observar as regras da chamada antes de apresentar seus projetos. O CNPq informa que a iniciativa é voltada a startups e empresas de pequeno e médio porte e que as propostas devem estar relacionadas ao desenvolvimento de soluções em inteligência artificial. Página oficial de inscrições e informações do CNPq
Nos próximos meses, os resultados dessa política poderão mostrar se a inteligência artificial consegue avançar de forma mais distribuída pelo território brasileiro. Para Norte e Nordeste, existe uma oportunidade de usar a tecnologia não apenas para consumir soluções produzidas em outras regiões, mas para criar produtos baseados nos próprios desafios econômicos e sociais locais. Se empresas, universidades e pesquisadores conseguirem trabalhar em conjunto, a cota regional poderá ajudar a formar novos negócios, qualificar profissionais e aumentar a capacidade de inovação. O resultado esperado é uma economia digital menos concentrada e mais conectada às vocações de cada território, com potencial para transformar pesquisa em produtividade, empregos qualificados e desenvolvimento regional.
