Decisão do governo pode transformar Ceará, Maranhão e Piauí em novos polos de indústria, energia limpa e tecnologia

Luca Montari
Luca Montari
Decisão do governo pode transformar Ceará, Maranhão e Piauí em novos polos de indústria, energia limpa e tecnologia

Projetos aprovados em ZPEs do Nordeste somam R$ 206 bilhões e podem ampliar exportações, empregos qualificados e investimentos em infraestrutura.

Uma decisão tomada pelo governo federal na última semana colocou três estados do Nordeste no centro de uma das maiores agendas recentes de investimentos industriais do país. O Conselho Nacional das Zonas de Processamento de Exportação, CZPE, aprovou cinco novos projetos para as ZPEs de Pecém, no Ceará, Bacabeira, no Maranhão, e Parnaíba, no Piauí, com investimentos previstos de R$ 206 bilhões. A medida envolve setores considerados estratégicos para a política industrial brasileira, como economia digital, energias renováveis, hidrogênio verde e siderurgia de baixo carbono. (Serviços e Informações do Brasil)

O tamanho dos valores chama atenção, mas a questão política mais importante é o que essa decisão pode produzir na prática para os estados envolvidos. A aprovação pelo CZPE não significa que R$ 206 bilhões serão desembolsados imediatamente, pois cada empreendimento ainda precisa avançar em etapas próprias de implantação. Mesmo assim, a decisão federal cria condições institucionais para que os projetos utilizem o regime especial das ZPEs, ampliem a capacidade exportadora e atraiam fornecedores, trabalhadores e novos negócios. Para o Nordeste, o movimento também representa uma tentativa de transformar vantagens naturais, como disponibilidade de energia renovável e localização estratégica, em uma política permanente de desenvolvimento regional.

O que o governo federal aprovou para o Ceará, Maranhão e Piauí?

O maior projeto aprovado está no Ceará. A empresa Voltalia Energia do Brasil recebeu autorização para instalar um novo data center na ZPE de Pecém, com investimento previsto de R$ 181,7 bilhões. Segundo o Ministério do Desenvolvimento, Indústria, Comércio e Serviços, o empreendimento deve gerar 2.300 empregos diretos durante a implantação e outros 400 na fase operacional. O projeto também prevê expansão de usinas eólicas e solares para atender à demanda energética do centro de processamento de dados, além do uso de água de reúso na refrigeração. (Serviços e Informações do Brasil)

No Maranhão, a decisão contempla três empreendimentos na ZPE de Bacabeira. A 4Wood Biotech pretende investir R$ 2,7 bilhões em uma biorrefinaria de biomassa de bambu voltada à produção e exportação de etanol de segunda geração e outros bioprodutos. A H2X planeja aplicar R$ 2 bilhões na produção de hidrogênio verde incorporado a e-metanol, enquanto a Hydeas prevê R$ 18,5 bilhões para produzir HBI verde, um tipo de ferro-esponja fabricado com uso de fontes renováveis. Juntos, os três projetos estimam 10 mil empregos diretos durante a implantação e 550 na fase operacional. (Serviços e Informações do Brasil)

No Piauí, a empresa HyMetalx recebeu aprovação para investir R$ 1,1 bilhão na ZPE de Parnaíba. O projeto prevê uma unidade para produção de ferro-gusa verde utilizando hidrogênio verde produzido a partir de eletricidade renovável e tem expectativa de 605 empregos diretos totais. Somados, os projetos aprovados pelo CZPE têm previsão de gerar aproximadamente R$ 40 bilhões por ano em novas exportações a partir de 2029. Isso coloca a decisão dentro de uma estratégia maior de inserção do Nordeste em cadeias internacionais ligadas à transição energética, à indústria de baixo carbono e aos serviços digitais. (Serviços e Informações do Brasil)

A importância política da medida está justamente na escolha dos setores e dos territórios. As ZPEs foram concebidas como instrumentos de política pública para reduzir desequilíbrios regionais, estimular exportações, difundir tecnologia e promover desenvolvimento econômico e social. O regime permite benefícios tributários, administrativos e cambiais para empresas habilitadas, criando condições diferentes das encontradas por empreendimentos semelhantes fora dessas áreas. (Serviços e Informações do Brasil)

Por que essa decisão pode mudar a economia do Nordeste?

O impacto mais imediato tende a aparecer no mercado de trabalho durante a construção das estruturas. Projetos dessa dimensão demandam trabalhadores da construção civil, engenharia, logística, manutenção, tecnologia, energia e serviços especializados. Entretanto, o efeito que interessa mais aos governos estaduais é o que pode permanecer depois da implantação. Um polo industrial ou tecnológico consolidado pode gerar fornecedores locais, estimular formação profissional, aumentar a demanda por serviços e atrair outras empresas interessadas em operar próximas às novas cadeias produtivas.

O Ceará tem uma vantagem adicional por causa da estrutura logística do Complexo do Pecém. A combinação entre infraestrutura portuária, geração de energia renovável e localização estratégica pode favorecer atividades voltadas ao comércio exterior e ao processamento de dados. O novo data center aprovado também reforça uma tendência de aproximar infraestrutura digital de fontes renováveis de energia. Se a implantação avançar conforme planejado, o estado poderá ampliar sua participação em uma área que exige grandes quantidades de eletricidade e conectividade, mas que também demanda mão de obra altamente qualificada.

No Maranhão, o efeito potencial é diferente. A concentração de projetos relacionados à biomassa, hidrogênio verde e siderurgia sustentável pode criar uma cadeia industrial baseada em recursos disponíveis na própria região. Isso pode beneficiar empresas de transporte, manutenção, engenharia, serviços ambientais e fornecimento de equipamentos. A oportunidade, porém, não depende apenas da instalação das fábricas. Para que o investimento se converta em desenvolvimento regional, será necessário ampliar a qualificação profissional e criar condições para que fornecedores locais consigam participar dos contratos.

O Piauí também entra nessa transformação por uma frente estratégica. A produção de ferro-gusa verde na ZPE de Parnaíba aproxima o estado de uma cadeia industrial associada à descarbonização da siderurgia. A utilização de hidrogênio produzido com energia renovável pode aumentar o valor agregado dos recursos energéticos disponíveis na região. Em vez de exportar apenas energia ou matérias-primas, o objetivo passa a ser produzir bens industriais destinados ao mercado internacional, aumentando a complexidade econômica da atividade.

Para a população, entretanto, existe uma diferença importante entre investimento anunciado e desenvolvimento efetivamente realizado. Os R$ 206 bilhões são valores previstos para projetos aprovados, não dinheiro já aplicado. Cada empreendimento ainda precisa superar etapas técnicas, ambientais, financeiras e operacionais. O acompanhamento dessas fases será fundamental para verificar se as promessas de empregos, exportações e desenvolvimento serão efetivamente concretizadas.

Quais serão os próximos passos e quem pode se beneficiar?

A aprovação do CZPE representa uma etapa importante, mas não encerra o processo. Os projetos empresariais precisam avançar na implantação dentro das regras das ZPEs e cumprir exigências relacionadas ao funcionamento dos empreendimentos. Atualmente, o Brasil possui 13 ZPEs criadas, sendo quatro consideradas ativas e outras nove em diferentes estágios de instalação. Pecém e Parnaíba estão entre as zonas ativas, enquanto Bacabeira está em fase de implementação. (Serviços e Informações do Brasil)

O modelo também explica por que a decisão do governo pode produzir efeitos além das empresas diretamente envolvidas. As ZPEs oferecem facilidades administrativas e benefícios tributários para empreendimentos habilitados, incluindo suspensão de determinados tributos sobre aquisições e importações relacionadas às atividades enquadradas. O regime também prevê mecanismos associados à reforma tributária, com suspensão de IBS e CBS nas condições estabelecidas pela legislação. (Serviços e Informações do Brasil)

Para trabalhadores do Nordeste, isso pode aumentar a procura por profissionais especializados em tecnologia, automação, energia, engenharia, logística, química, manutenção industrial e gestão ambiental. Universidades, institutos federais, escolas técnicas e centros de formação profissional terão papel importante se os estados quiserem preparar a mão de obra local antes que as vagas sejam abertas. Caso contrário, parte da demanda poderá ser atendida por profissionais vindos de outras regiões, reduzindo o efeito imediato sobre a população local.

Pequenas e médias empresas também podem encontrar oportunidades. Grandes projetos precisam de alimentação, transporte, hospedagem, segurança, limpeza, manutenção, serviços digitais, peças, equipamentos e consultorias. Uma política pública de desenvolvimento regional bem-sucedida não deveria medir o resultado apenas pelo número de fábricas instaladas, mas também pela capacidade de criar uma rede de fornecedores locais. Esse encadeamento é o que pode transformar um grande investimento isolado em um processo mais amplo de crescimento econômico.

A decisão também coloca pressão sobre governos estaduais e municipais. Para aproveitar os empreendimentos, será necessário planejar infraestrutura urbana, mobilidade, abastecimento de água, energia, conectividade, formação profissional e serviços públicos. O crescimento acelerado de determinadas áreas pode gerar problemas se a expansão industrial ocorrer sem planejamento. Por isso, a agenda política daqui para frente será tão importante quanto a aprovação dos projetos.

Os próximos anos serão decisivos para saber se os R$ 206 bilhões aprovados se transformarão em obras, fábricas, centros tecnológicos, empregos e exportações. A previsão de R$ 40 bilhões anuais em novas vendas externas a partir de 2029 mostra o tamanho da expectativa criada pela decisão. Se os projetos avançarem com planejamento, fiscalização e formação de mão de obra, Ceará, Maranhão e Piauí poderão consolidar novos polos ligados à economia digital e à transição energética. Para o Nordeste, o maior ganho poderá estar na capacidade de transformar energia renovável e recursos regionais em produtos de maior valor agregado, fortalecendo empregos, empresas locais e a posição da região no comércio internacional.

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