Medo de golpe digital já supera o medo da violência de rua no Brasil, aponta anuário

Diego Velázquez
Diego Velázquez
Medo de golpe digital já supera o medo da violência de rua no Brasil, aponta anuário

Levantamento nacional mostra que criminosos migraram para o ambiente digital, enquanto o Nordeste concentra as dez cidades mais violentas do país.

O brasileiro mudou o alvo do seu medo. É o que revela o mais recente Anuário Brasileiro de Segurança Pública, que consultou a população sobre suas principais preocupações relacionadas à criminalidade. Pela primeira vez em anos de pesquisa, o receio de cair em um golpe financeiro ultrapassou o temor de sofrer um assalto ou uma agressão física nas ruas. O dado chama atenção porque expõe uma mudança de comportamento tanto de quem comete crimes quanto de quem os sofre, e ajuda a explicar por que boa parte das políticas de segurança pública já discute, com a mesma urgência de sempre, também o combate a fraudes digitais. Ao mesmo tempo, o levantamento reforça um problema antigo e persistente: a concentração da violência letal em municípios do Nordeste, região que voltou a dominar o ranking das cidades mais perigosas do país.

Por que o golpe virou o novo medo do brasileiro

Segundo Renato Sérgio de Lima, diretor-presidente do Fórum Brasileiro de Segurança Pública, o tipo de ocorrência relacionada a fraudes está fora de controle, e as respostas do poder público ainda são insuficientes diante do problema. A entidade aponta que 85% da população tem como principal temor perder dinheiro em um golpe, superando amplamente outras formas de criminalidade. A explicação, segundo pesquisadores da área, está na lógica econômica do crime: aplicar um golpe pela internet costuma exigir menos exposição e menos risco físico do que um assalto tradicional, além de permitir que o criminoso atinja várias vítimas ao mesmo tempo, em cidades e até estados diferentes, sem sair de casa. PaginadepoliciaPaginadepolicia

Esse movimento tem consequências práticas para quem usa aplicativos bancários, redes sociais e mensagens de texto no dia a dia. Órgãos de defesa do consumidor recomendam desconfiar de contatos que pedem transferências urgentes, evitar clicar em links recebidos por SMS ou WhatsApp sem confirmar a origem e nunca informar senhas ou códigos de autenticação por telefone, mesmo quando quem liga se identifica como funcionário do banco. A orientação geral é sempre buscar confirmação direta pelos canais oficiais da instituição financeira antes de qualquer movimentação solicitada por terceiros.

Nordeste concentra as cidades mais violentas do país

Enquanto o medo do golpe cresce nas cidades grandes, a violência letal segue concentrada em municípios de médio porte no Nordeste. A 20ª edição do anuário atualizou o ranking das dez cidades mais violentas do país entre as que têm mais de 100 mil habitantes, e todas elas estão na região, sendo cinco municípios baianos e três cearenses. Maranguape, no Ceará, aparece no topo da lista, com taxa de 100,3 mortes por 100 mil habitantes, seguida por Eunápolis (BA), com 85,1, Maracanaú (CE), com 80,7, Porto Seguro (BA), com 71,2, e Simões Filho (BA), com 68,1. Completam a lista Jequié (BA), Caucaia (CE), Cabo de Santo Agostinho (PE), Santa Rita (PB) e Juazeiro (BA). Paginadepolicia + 3

O padrão não é novo, mas volta a acender um sinal de alerta sobre a eficácia das políticas de segurança nesses municípios específicos. Especialistas apontam que cidades médias, muitas vezes distantes das capitais e com menor estrutura policial proporcional, acabam se tornando território disputado por facções que atuam em rotas de tráfico interestadual. A proximidade com rodovias, portos e fronteiras estaduais também contribui para esse cenário, já que facilita tanto o deslocamento de armas e drogas quanto disputas territoriais entre grupos rivais.

O dinheiro público investido não acompanha a queda da criminalidade

Em 2025, União, estados e municípios aplicaram juntos R$ 163,1 bilhões em segurança pública, o maior volume desde o início da série histórica em 2016. Os governos estaduais foram responsáveis por 80,5% desse total, somando R$ 131,2 bilhões, um crescimento de 6,2% em relação ao ano anterior, enquanto a União aplicou R$ 18 bilhões, uma queda de 17,7%, e os municípios investiram R$ 13,7 bilhões, recuo de 2,9%. Ainda assim, o próprio anuário destaca que gastar mais não significa, automaticamente, colher melhores resultados no combate ao crime. MaceionoticiasMaceionoticias

Esse contraste entre recorde de investimento e persistência da violência em áreas específicas é um dos pontos mais debatidos entre gestores públicos no momento. Para pesquisadores da área, falta principalmente inteligência na aplicação dos recursos: equipamentos e efetivo por si só não resolvem quando não há investigação qualificada, integração entre polícias de diferentes estados e ações voltadas à prevenção. É esse o pano de fundo que explica por que, mesmo com mais dinheiro em caixa, cidades do interior nordestino seguem no topo das estatísticas mais preocupantes do país havia anos.

Fontes consultadas:

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