Nova metodologia federal abre caminho para projetos offshore e aumenta a disputa pelo uso do espaço marítimo nordestino.
Uma nova etapa da expansão da energia eólica offshore no Brasil começa a ganhar forma e coloca o Nordeste diante de uma oportunidade econômica que pode mudar a relação da região com a indústria de energia. Em julho, a Empresa de Pesquisa Energética publicou a metodologia definitiva para selecionar áreas do mar que poderão ser oferecidas a projetos de geração eólica. O modelo considera critérios técnicos, ambientais, sociais e econômicos, em uma tentativa de organizar uma atividade que ainda está em fase de estruturação no país. (EPE)
O assunto merece atenção especialmente nos estados nordestinos porque a região concentra grande parte dos projetos em análise e possui condições naturais favoráveis à geração de eletricidade pelos ventos. Ao mesmo tempo, o mar já é utilizado por pescadores, comunidades costeiras, turismo, navegação e outras atividades. A dúvida que surge para moradores e empresas é prática: a expansão das eólicas offshore vai significar apenas novos parques de energia ou poderá criar empregos, investimentos e uma cadeia industrial inteira no Nordeste?
Por que o Nordeste está no centro da expansão das eólicas offshore?
O potencial nordestino não se resume à força dos ventos. A região já desenvolveu uma cadeia de fornecedores, profissionais e empresas ligada à energia eólica terrestre, criando uma base que pode facilitar a transição para projetos no mar. Ceará, Rio Grande do Norte, Piauí e Maranhão aparecem entre os estados envolvidos nos processos de licenciamento acompanhados pelo Ibama, mostrando que a corrida pela geração offshore já possui dimensão regional. (Serviços e Informações do Brasil)
Os números ajudam a dimensionar o interesse. No levantamento do Ibama atualizado em fevereiro de 2026, havia 8.886 aerogeradores associados a projetos offshore em licenciamento no país. O Nordeste concentrava 4.170 desses equipamentos previstos, com potência associada de 18.610 MW e uma área total em licenciamento de 18.610 km². Ceará e Rio Grande do Norte estavam entre os estados com projetos expressivos, ao lado de Piauí e Maranhão. (Serviços e Informações do Brasil)
Isso não significa que todos esses empreendimentos serão construídos. Projetos em licenciamento ainda precisam superar diferentes etapas ambientais, técnicas e regulatórias, e alguns podem ser modificados ou não avançar. O dado, porém, revela a dimensão do interesse empresarial pelo litoral nordestino e ajuda a explicar por que a regulamentação do setor passou a ser acompanhada de perto por governos, investidores e comunidades.
A nova metodologia da EPE tenta justamente colocar ordem nesse processo. O documento estabelece critérios para definir quais áreas poderão ser ofertadas e considera os diferentes usos do espaço marítimo. A proposta recebeu cerca de 400 contribuições de 41 instituições durante a fase de consulta pública, indicando que a discussão envolve muito mais setores do que apenas empresas de energia. (EPE)
Que empregos e oportunidades podem surgir com os parques no mar?
O efeito econômico mais interessante pode aparecer fora da geração de eletricidade. Grandes parques offshore demandam embarcações, serviços portuários, manutenção, engenharia, construção, logística, equipamentos elétricos, tecnologia e profissionais especializados. Para estados nordestinos que já possuem experiência com energia eólica, isso pode representar uma oportunidade de ampliar uma cadeia produtiva existente em vez de começar praticamente do zero.
Portos também podem ganhar importância. Componentes de grandes aerogeradores precisam ser transportados, armazenados e instalados, o que exige infraestrutura adequada e serviços especializados. Cidades costeiras que conseguirem se posicionar como bases de apoio podem receber novos negócios e investimentos. O impacto potencial, portanto, não fica restrito ao município onde eventualmente será instalado um parque, podendo alcançar fornecedores, empresas de transporte, hotéis, restaurantes e centros de formação profissional.
Há ainda uma oportunidade para universidades e institutos federais. A implantação de uma nova indústria energética exige técnicos e engenheiros capazes de trabalhar com estruturas marítimas, automação, manutenção, sistemas elétricos, análise de dados e segurança operacional. Se a expansão for acompanhada de cursos e programas de capacitação, parte dos empregos mais qualificados poderá ser preenchida por trabalhadores formados na própria região.
O desafio é evitar que o Nordeste fique apenas com atividades de menor valor agregado. A região já possui experiência relevante na geração eólica, mas uma indústria offshore mais madura pode exigir componentes, tecnologia e serviços ainda pouco desenvolvidos localmente. Políticas de qualificação, financiamento e estímulo a fornecedores regionais serão importantes para que o investimento gere efeitos econômicos duradouros, em vez de simplesmente movimentar equipamentos produzidos em outras partes do país ou do mundo.
O que pode acontecer com a pesca e outras atividades do litoral?
A expansão da energia eólica no mar também abre uma discussão que não pode ser tratada como detalhe: quem já utiliza aquele espaço. Pescadores artesanais dependem de determinadas rotas, áreas de captura e condições ambientais para manter sua atividade. A instalação de estruturas, cabos submarinos e zonas de segurança pode alterar rotas ou limitar determinados usos, tornando a avaliação dos impactos sociais tão importante quanto a análise do potencial energético.
O próprio processo federal reconhece que a ocupação do espaço marítimo precisa conciliar diferentes interesses. A metodologia elaborada pela EPE considera dimensões ambientais, sociais, técnicas e econômicas, enquanto o licenciamento conduzido pelo Ibama é responsável por avaliar os impactos dos empreendimentos offshore. O instituto também informa que projetos dessa natureza estão sujeitos ao licenciamento ambiental federal. (Serviços e Informações do Brasil)
Para o Nordeste, essa etapa será decisiva porque muitos municípios costeiros possuem economias diretamente ligadas ao mar. Pesca artesanal, turismo, transporte marítimo e atividades tradicionais podem ser afetados por decisões sobre localização. Por isso, a escolha das áreas não deve ser analisada apenas pelo número de megawatts que um parque consegue produzir. Distância da costa, rotas de pesca, biodiversidade, navegação, infraestrutura portuária e conexão com a rede elétrica também podem determinar se determinado projeto será economicamente e socialmente viável.
O caminho que se abre agora é, portanto, maior do que a construção de novas usinas. O Brasil já possui uma lei específica para disciplinar o aproveitamento do potencial energético offshore e, em 2026, o Conselho Nacional de Política Energética estabeleceu novas diretrizes para o setor. A metodologia da EPE representa mais um passo para transformar esse potencial em áreas concretamente planejadas. (Serviços e Informações do Brasil)
Nos próximos anos, o Nordeste poderá disputar uma posição estratégica em uma indústria que combina energia renovável, infraestrutura marítima e tecnologia. Para isso, será necessário transformar o potencial dos ventos em investimentos capazes de gerar empregos locais, qualificação profissional e fornecedores regionais, sem ignorar quem já depende do mar. O avanço da regulamentação tende a aumentar o interesse empresarial, mas também deverá ampliar a cobrança por estudos ambientais e participação social. Se planejamento econômico e proteção das comunidades caminharem juntos, a energia eólica offshore poderá representar uma nova fronteira de desenvolvimento regional. Caso contrário, conflitos pelo uso do espaço marítimo podem atrasar projetos e reduzir parte dos benefícios esperados.
