É possível ter efeito sanfona após a cirurgia bariátrica? Especialista em comportamento alimentar explica

Luca Montari
Luca Montari
Lucas Peralles

Lucas Peralles, especialista em comportamento alimentar, explica que, mesmo com perda de peso inicial expressiva após a cirurgia bariátrica, é comum que parte dos pacientes volte a ganhar peso meses ou anos depois do procedimento. Esse padrão surpreende muita gente, que associa a cirurgia a um resultado definitivo, sem considerar o papel do comportamento alimentar no longo prazo.

Entender por que o efeito sanfona pode acontecer mesmo depois de uma cirurgia bariátrica ajuda a explicar por que o acompanhamento comportamental continua sendo essencial mesmo depois do procedimento. Ao longo do artigo, você verá quais fatores podem influenciar a recuperação de peso após a cirurgia bariátrica.

Por que a cirurgia sozinha não garante manutenção do peso?

A cirurgia bariátrica altera a anatomia do sistema digestivo, reduzindo a capacidade de ingestão e, em alguns casos, a absorção de nutrientes, o que favorece a perda de peso nos primeiros meses. Com o tempo, no entanto, o corpo tende a se adaptar a essas mudanças, e o comportamento alimentar volta a ter papel central na manutenção ou não do resultado, mesmo em pacientes que tiveram excelente resposta ao procedimento no início.

Lucas Peralles explica que a cirurgia trata a questão anatômica, mas não resolve, por si só, padrões de comportamento alimentar construídos ao longo de anos, como comer por ansiedade, dificuldade de identificar saciedade ou uso da comida como forma de lidar com emoções difíceis, hábitos que continuam presentes mesmo depois de o corpo mudar fisicamente.

O papel do comportamento alimentar depois da cirurgia

Muitos pacientes relatam voltar a comer em maiores quantidades ao longo do tempo, mesmo sem perceber claramente esse processo, à medida que o estômago se adapta e a sensação de restrição diminui. Sem trabalho comportamental paralelo, os mesmos padrões que levaram ao ganho de peso antes da cirurgia podem voltar a se manifestar depois dela.

Lucas Peralles
Lucas Peralles

Nesses casos, o histórico alimentar do paciente antes e depois da cirurgia, identificando os gatilhos emocionais e os padrões de compulsão, precisa ser considerado como parte do acompanhamento comportamental, independentemente do procedimento cirúrgico em si. A cirurgia não substitui esse tipo de cuidado, e negligenciar essa dimensão pode contribuir para o reganho de peso alguns anos depois do procedimento. Ignorar esse trabalho comportamental costuma ser um dos fatores mais associados ao reganho de peso alguns anos depois da cirurgia. 

Sinais de que o efeito sanfona pode estar recomeçando

Retomar hábitos como beliscar entre as refeições, aumentar gradualmente as porções ou recorrer à comida em momentos de estresse são sinais de que o comportamento alimentar pode estar voltando ao padrão anterior à cirurgia, mesmo que o ganho de peso ainda não seja perceptível na balança nas primeiras semanas em que esses hábitos retornam.

Lucas Peralles reforça a importância de identificar esses sinais precocemente, já que corrigir o comportamento nesse estágio inicial costuma ser mais simples do que esperar o ganho de peso se tornar significativo para então buscar ajuda especializada. Na prática, muitos pacientes só procuram acompanhamento quando o peso já voltou de forma expressiva, o que torna o processo de correção mais longo do que seria se o sinal tivesse sido identificado antes.

Por que o acompanhamento multidisciplinar continua importante?

A cirurgia bariátrica costuma envolver acompanhamento médico, nutricional e, em muitos casos, psicológico, mesmo depois do período pós-operatório imediato. Interromper esse acompanhamento assim que o resultado inicial é alcançado é um dos fatores associados ao reganho de peso a médio e longo prazo.

O acompanhamento do comportamento alimentar deve caminhar em paralelo ao acompanhamento médico do paciente bariátrico, já que decisões sobre a cirurgia e o pós-operatório clínico sempre precisam ser conduzidas pela equipe médica responsável, enquanto o trabalho comportamental foca em sustentar mudanças de hábito no longo prazo. Essa divisão de responsabilidades evita que o paciente fique sem suporte justamente na fase em que o corpo começa a se adaptar às mudanças trazidas pela cirurgia.

O Instagram de Lucas Peralles traz conteúdos sobre comportamento alimentar e efeito sanfona. Para acompanhar mais sobre o tema, siga @nutriperalles.

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