Tarifaço dos EUA já vale: quem paga a conta no Brasil e como o governo reage

Diego Velázquez
Diego Velázquez
Tarifaço dos EUA já vale: quem paga a conta no Brasil e como o governo reage

Medida afeta cerca de 20% das exportações brasileiras e concentra impacto em São Paulo e Santa Catarina, enquanto Brasília anuncia linhas de crédito e busca novos mercados.

O tarifaço anunciado pelos Estados Unidos deixou de ser ameaça e passou a valer, mudando de forma concreta a rotina de milhares de empresas exportadoras brasileiras. A dúvida que fica para quem acompanha o tema de fora do mercado financeiro é direta: quem realmente sente esse impacto no bolso, e o que o governo brasileiro está fazendo para reduzir o estrago? A resposta envolve setores específicos da indústria, estados concentradores de exportação e um pacote de medidas emergenciais que tenta amortecer o golpe enquanto durar a disputa comercial entre os dois países.

Quais produtos e estados sentem mais o peso da tarifa

O tarifaço atinge cerca de 20% das exportações do Brasil para os Estados Unidos, com o valor total das exportações afetadas estimado entre US$ 7,2 bilhões e US$ 11 bilhões, segundo cálculos da Apex-Brasil e da Câmara Americana de Comércio para o Brasil. Entre os 2,3 mil produtos afetados, a maioria está nos setores de eletroeletrônicos, máquinas e equipamentos, autopeças e calçados. Do lado positivo, cerca de 700 produtos ficaram isentos da tarifa, número maior do que os 615 inicialmente previstos durante as negociações, um alívio parcial para setores que temiam impacto ainda mais amplo. Agência Brasil + 2

O mercado americano é o principal destino das exportações brasileiras de eletroeletrônicos, e o país responde por cerca de um quarto das vendas externas do setor de máquinas e equipamentos, o que explica por que essas indústrias lideram as reclamações desde o anúncio da medida. Geograficamente, o impacto também não é uniforme. São Paulo e Santa Catarina concentram 52% do impacto do tarifaço, com o estado paulista, sozinho, respondendo por 41,6% do total do valor exportado afetado, reforçando que a conta recai de forma mais pesada sobre o parque industrial do Sudeste e do Sul do país. Agência BrasilAgência Brasil

As medidas anunciadas pelo governo brasileiro

Diante do cenário, Brasília não ficou parada. Em resposta ao tarifaço, o governo brasileiro anunciou que retomará o programa de apoio aos setores afetados, com linha de crédito voltada a capital de giro e investimentos, além de apoio para escoamento de produtos a outros clientes e países. A ideia central é evitar que empresas exportadoras percam capacidade de produção ou precisem demitir enquanto buscam novos compradores fora dos Estados Unidos, processo que costuma levar meses até se consolidar. Agência Brasil

O governo também avalia flexibilizar temporariamente regras do regime de isenção, suspensão ou restituição de tributos para insumos usados na produção de mercadorias destinadas à exportação, medida que reduz custos internos para compensar, ainda que parcialmente, a perda de competitividade no mercado americano. Paralelamente, a Apex-Brasil prevê divulgar em agosto um plano de R$ 130 milhões para diversificar as exportações brasileiras, com foco especial na União Europeia e em países da Associação de Nações do Sudeste Asiático, como Indonésia, Malásia, Tailândia e Vietnã. Agência BrasilAgência Brasil

O que esperar para os próximos meses

O tarifaço chegou em um momento delicado para setores que já vinham enfrentando margens apertadas, e o efeito colateral tende a se espalhar por cadeias produtivas inteiras, já que fornecedores de peças e insumos ligados às indústrias mais afetadas também sentem a redução de encomendas. Ainda assim, a manutenção de quase 700 produtos isentos evita um cenário pior, especialmente para setores estratégicos que dependem fortemente do mercado americano.

Para empresas de menor porte, a orientação de entidades como a Apex-Brasil é buscar orientação sobre as linhas de crédito emergenciais e avaliar, desde já, a viabilidade de diversificar compradores, já que a diversificação de mercado costuma ser mais eficaz como estratégia de médio prazo do que como resposta imediata a uma crise comercial. Nos próximos meses, o desfecho dependerá tanto do andamento das negociações diplomáticas entre Brasília e Washington quanto da capacidade do setor produtivo brasileiro de se adaptar antes que o impacto se torne permanente.

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