Dados do Inpe e do Imazon mostram redução histórica na floresta, enquanto governo brasileiro rebate acusações usadas por Washington para justificar taxação extra sobre produtos do país
O primeiro semestre de 2026 trouxe um dado comemorado pelo governo brasileiro e pelos órgãos ambientais: o desmatamento na Amazônia atingiu o menor patamar para um período de seis meses em dez anos. Segundo o Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais (Inpe), os alertas de desmatamento entre agosto de 2025 e junho de 2026 somaram 2.485,90 quilômetros quadrados, uma queda de 37,2% em relação ao mesmo intervalo do ciclo anterior.
Levantamento complementar do Instituto do Homem e Meio Ambiente da Amazônia (Imazon) chegou a um número parecido, com 1.145 quilômetros quadrados de floresta derrubada entre janeiro e junho, resultado 10% menor que o registrado no mesmo período de 2025. Para o instituto, trata-se da menor área desmatada em um primeiro semestre nos últimos oito anos, e uma redução de 76% frente ao pico da série histórica, verificado em 2022.
Governo usa dados para rebater acusações dos Estados Unidos
A divulgação dos números ganhou um contexto político adicional, já que ocorreu poucos dias depois de o governo dos Estados Unidos incluir o desmatamento ilegal entre as justificativas para aplicar uma tarifa adicional de 25% sobre produtos brasileiros. Em resposta, o governo brasileiro classificou as acusações como indevidas e voltou a defender que os índices de desmatamento vêm em trajetória de queda desde 2023.
O ministro do Meio Ambiente e Mudança do Clima, João Paulo Capobianco, chegou a afirmar que os números mostram que o controle de desmatamento na Amazônia está funcionando, citando também ações anunciadas pelo presidente Luiz Inácio Lula da Silva durante cerimônia pelo Dia Mundial do Meio Ambiente, em junho. Os dados do sistema Deter, usado para orientar operações de fiscalização do Ibama e do ICMBio, seguem sendo apresentados como principal evidência do avanço no combate ao desmatamento.
Apesar do resultado positivo no acumulado, o levantamento do Imazon aponta que apenas dois dos nove estados da Amazônia Legal tiveram alta no desmatamento entre agosto de 2025 e junho de 2026: Roraima, com aumento de 25%, e Maranhão, com 20%. Os demais sete estados apresentaram quedas que variaram entre 27%, no Mato Grosso, e 67%, no Tocantins.
Áreas protegidas ainda sob pressão
Mesmo com a queda geral, o estudo identificou focos persistentes de desmatamento dentro de unidades de conservação. A Área de Proteção Ambiental Triunfo do Xingu, no Pará, concentrou sozinha metade de todo o desmatamento registrado em áreas protegidas da Amazônia no primeiro semestre, com 47,85 quilômetros quadrados de floresta derrubada.
A Floresta Nacional do Jamanxim, também no Pará, apareceu como a quinta unidade de conservação mais desmatada da região, em meio à recente aprovação, pelo Senado, de um projeto de lei que reduz a área de proteção da unidade. Ambientalistas veem no episódio um exemplo de como decisões legislativas podem comprometer os avanços já obtidos no controle da devastação.
No Amazonas, dado divulgado separadamente pelo Instituto de Proteção Ambiental do Amazonas (Ipaam) mostrou queda de 30,1% na área desmatada no primeiro trimestre de 2026, ainda que o número de alertas tenha crescido 12,4% no mesmo período, o que o órgão atribui à intensificação do monitoramento em áreas de maior risco.
O que vem pela frente para a política ambiental na região
Para o governo federal, sustentar a trajetória de queda até o fim de 2026 é estratégico não apenas do ponto de vista ambiental, mas também diplomático, em meio às tensões comerciais com os Estados Unidos. A expectativa é de que os próximos boletins do Deter, divulgados mensalmente pelo Inpe, sirvam como argumento nas negociações sobre a tarifa adicional imposta a produtos brasileiros.
Ao mesmo tempo, órgãos de monitoramento reforçam que reduzir o desmatamento em áreas de floresta pública não destinada e em territórios sem regularização fundiária, onde ocorre boa parte da devastação ilegal, continua sendo o principal desafio para transformar a queda pontual em uma tendência consolidada de longo prazo.
A discussão também deve ganhar força política nos próximos meses, com estados amazônicos protagonizando o debate eleitoral de 2026, no qual questões ambientais tendem a se cruzar com pautas de infraestrutura, energia e desenvolvimento regional na Amazônia Legal.
Fontes consultadas:
Agência Brasil
Agência Brasil
CNN Brasil
IPAAM

