Feijão do Nordeste cresce 17,8% e abre espaço para exportações, renda e novos negócios na região

Luca Montari
Luca Montari
Feijão do Nordeste cresce 17,8% e abre espaço para exportações, renda e novos negócios na região

Produção regional deve chegar a 711,7 mil toneladas, enquanto Maranhão, Bahia e Piauí ampliam presença nas vendas para o exterior.

A produção de feijão do Nordeste entrou em uma fase de expansão que pode ter efeitos muito além das lavouras. Segundo análise divulgada pelo Banco do Nordeste em 9 de setembro, a região deve alcançar 711,7 mil toneladas na safra 2025/2026, alta de 17,8% sobre o ciclo anterior. O resultado chama atenção porque ocorre enquanto a produção nacional da leguminosa recua 3,2%, criando uma diferença importante entre o desempenho regional e o cenário brasileiro.

A mudança também aparece no comércio exterior. Entre janeiro e julho de 2026, as exportações nordestinas de feijão somaram 17,5 mil toneladas e US$ 13,05 milhões, com crescimento de 31,9% no volume e 27,8% no valor em comparação com o mesmo período de 2025. Para quem vive no Nordeste, a questão mais importante agora é entender se esse avanço pode se transformar em mais renda no campo, empregos, agroindústrias e oportunidades para pequenos produtores, além de quais riscos podem limitar esse crescimento.

Por que a produção de feijão cresceu no Nordeste?

O avanço regional está relacionado principalmente à recuperação da produtividade em estados como Bahia, Ceará e Piauí, favorecida por condições climáticas mais regulares em parte do ciclo produtivo. O estudo do Escritório Técnico de Estudos Econômicos do Nordeste, ligado ao Banco do Nordeste, aponta que a produção regional deverá crescer enquanto o resultado nacional segue em direção oposta. A Bahia continua como principal produtora nordestina, com previsão de 318,5 mil toneladas, enquanto o Ceará apresenta a maior expansão proporcional, passando de 52,9 mil para 122,5 mil toneladas.

O desempenho não significa que o Nordeste esteja livre dos riscos climáticos. A própria análise setorial do Banco do Nordeste aponta que o fortalecimento do El Niño representa uma ameaça para o próximo ciclo, principalmente por aumentar a possibilidade de déficits hídricos no Semiárido. Isso é relevante porque boa parte da agricultura regional depende de condições de chuva mais favoráveis, e uma mudança no regime climático pode alterar rapidamente produtividade, custos e renda dos agricultores.

A Companhia Nacional de Abastecimento mantém acompanhamento específico da cultura e disponibiliza séries históricas de produção de feijão, incluindo variedades como feijão-caupi, feijão comum preto e feijão de cores. Os dados oficiais são importantes para produtores, compradores e gestores porque ajudam a acompanhar oferta, área plantada e evolução das safras. A Conab também destaca que o monitoramento agrícola serve de apoio à tomada de decisões dos produtores e à formulação de políticas de abastecimento.

O que as exportações significam para produtores e empresas?

O crescimento das exportações é um dos pontos que mais podem mudar a dinâmica econômica da cadeia do feijão nordestino. Entre janeiro e julho, o Nordeste vendeu 17,5 mil toneladas ao exterior, com o Maranhão respondendo por 12,42 mil toneladas e US$ 9,74 milhões. A Bahia apareceu em seguida, com 4,4 mil toneladas e US$ 2,81 milhões. Os números mostram que o comércio internacional deixou de ser apenas uma possibilidade distante e já representa uma atividade relevante para determinados polos produtores.

Esse movimento pode criar oportunidades para empresas que atuam antes e depois da porteira. Armazenagem, classificação, beneficiamento, transporte, embalagem e comercialização são atividades que podem ganhar importância quando uma produção agrícola passa a atender mercados mais amplos. Também existe espaço para cooperativas e associações estruturarem melhor a comercialização, aumentando a capacidade de pequenos produtores negociarem volumes e atenderem padrões exigidos por compradores nacionais e estrangeiros.

O feijão-caupi merece atenção especial nesse cenário. Segundo o estudo do Banco do Nordeste, a demanda asiática vem contribuindo para o avanço das vendas externas da região, enquanto Maranhão, Bahia e Piauí aparecem entre os estados de destaque. Essa procura cria uma possibilidade estratégica para o Nordeste: em vez de depender exclusivamente do mercado interno, produtores e empresas podem buscar maior inserção internacional e aproveitar nichos específicos de consumo.

Ao mesmo tempo, exportar mais não significa automaticamente que todos os produtores terão aumento de renda. O resultado depende de produtividade, custos, logística, qualidade, escala, capacidade de armazenamento e condições de negociação. Para agricultores familiares, o acesso a crédito e assistência técnica pode ser decisivo, principalmente porque o Banco do Nordeste mantém linhas destinadas ao setor rural e a diferentes atividades produtivas.

O feijão pode virar uma nova oportunidade de desenvolvimento regional?

A expansão da produção pode contribuir para o desenvolvimento regional se for acompanhada por investimentos capazes de transformar a colheita em uma cadeia econômica mais completa. Isso inclui estradas adequadas para o escoamento, armazéns, unidades de beneficiamento, acesso à energia, conectividade no campo e qualificação profissional. Quanto maior a parcela dessas etapas realizada dentro da própria região, maior tende a ser a capacidade de retenção de renda e geração de empregos no Nordeste.

O crédito também será importante para transformar produtividade em investimento. O Banco do Nordeste oferece programas voltados à agricultura, inovação, energia, turismo, pequenas empresas e infraestrutura, além de linhas específicas do FNE. Entre as opções estão programas para produção rural, irrigação, geração distribuída de energia e conexão no campo, instrumentos que podem ajudar produtores e empreendedores a modernizar suas atividades.

Existe, porém, um desafio que não pode ser ignorado: o clima. O estudo setorial do BNB aponta que a agricultura familiar responde por quase 60% da produção nordestina de feijão e alerta para riscos associados ao próximo ciclo, incluindo déficits hídricos. Isso significa que o crescimento observado em 2025/2026 precisa ser aproveitado também para fortalecer a capacidade de enfrentar períodos menos favoráveis, com armazenamento, seguro rural, planejamento de plantio, tecnologias de manejo e estratégias adequadas de financiamento.

A tendência para os próximos meses será acompanhar se o Nordeste conseguirá transformar uma boa safra em um ciclo mais duradouro de investimentos. O crescimento das exportações já mostra que existe demanda externa, enquanto a recuperação da produtividade indica potencial para ampliar a oferta regional. Se produtores, cooperativas, empresas e instituições financeiras conseguirem avançar em tecnologia, logística e gestão de riscos climáticos, o feijão poderá ganhar espaço como atividade capaz de movimentar não apenas o campo, mas também transporte, indústria, comércio e serviços.

Para os consumidores, o cenário também merece acompanhamento porque o feijão é um dos alimentos mais presentes na mesa brasileira. A Conab estima produção nacional próxima de 3 milhões de toneladas na safra 2025/2026 e considera o volume suficiente para garantir o abastecimento interno, embora o mercado permaneça sensível às variações de oferta e preços.

O próximo passo será verificar se o desempenho excepcional do Nordeste se mantém diante das condições climáticas do novo ciclo e da evolução das exportações. Para estados como Maranhão, Bahia, Ceará e Piauí, o resultado pode representar uma oportunidade de fortalecer cadeias produtivas, gerar renda e ampliar a participação em mercados internacionais. O potencial existe, mas sua transformação em desenvolvimento dependerá de infraestrutura, crédito, tecnologia e capacidade de proteger o produtor contra as oscilações do clima e dos preços.

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