Amazonas e Piauí ganham novas áreas protegidas: o que muda para comunidades e economia do Norte e Nordeste

Luca Montari
Luca Montari
Amazonas e Piauí ganham novas áreas protegidas: o que muda para comunidades e economia do Norte e Nordeste

Decretos federais ampliaram a proteção ambiental, criaram reservas no Amazonas e abriram novas possibilidades para turismo, manejo sustentável e desenvolvimento regional.

Uma decisão do governo federal tomada nesta semana pode produzir efeitos que vão muito além da preservação ambiental no Norte e Nordeste. Em 8 de setembro, foram assinados decretos que criaram quatro Reservas de Desenvolvimento Sustentável no Amazonas, na área de influência da BR-319, e ampliaram o Parque Nacional de Sete Cidades, no Piauí. Juntas, as novas reservas amazonenses abrangem cerca de 669 mil hectares, enquanto a ampliação do parque piauiense acrescentou 7.192 hectares à unidade, que passou a ter 13.502 hectares.

A medida interessa diretamente às comunidades que vivem nesses territórios, mas também envolve uma discussão política maior sobre infraestrutura, ocupação da Amazônia, turismo, geração de renda e uso econômico dos recursos naturais. No Amazonas, as novas reservas estão próximas de uma região que poderá sofrer mudanças importantes com a expansão da infraestrutura rodoviária. No Piauí, a ampliação da área protegida reforça o potencial turístico e a conservação de paisagens, nascentes, fauna e sítios arqueológicos. A questão central agora é entender como proteção ambiental e desenvolvimento econômico poderão avançar juntos.

O que muda para as comunidades do Amazonas?

As quatro novas Reservas de Desenvolvimento Sustentável ficam na região de influência da BR-319 e foram criadas nos municípios de Borba, Beruri, Tapauá, Careiro, Autazes e Humaitá. São elas a RDS Tupana Igapó-Açu I, RDS Tupana Igapó-Açu II, RDS Canaã e RDS Mirari. Segundo o Instituto Chico Mendes de Conservação da Biodiversidade, essas áreas foram desenhadas para proteger a biodiversidade ao mesmo tempo em que permitem o uso sustentável dos recursos naturais pelas populações tradicionais.

Isso significa que a criação das reservas não representa simplesmente a retirada das comunidades de seus territórios ou a proibição geral das atividades econômicas. A categoria de Reserva de Desenvolvimento Sustentável permite atividades como pesca, extrativismo e agricultura de subsistência dentro das regras de conservação. No caso da RDS Mirari, por exemplo, a proteção alcança ambientes florestais e aquáticos associados ao rio Madeira, onde vivem famílias que dependem diretamente dos recursos naturais.

A decisão também possui uma dimensão política ligada ao futuro da BR-319, rodovia que conecta Manaus a Porto Velho. O próprio governo federal afirma que as novas unidades funcionam como uma espécie de ordenamento territorial diante das transformações que podem ocorrer com a melhoria da infraestrutura. A lógica é criar mecanismos de proteção antes que a expansão da ocupação, do desmatamento e de atividades econômicas aumente a pressão sobre áreas ainda preservadas.

Para os moradores, o desafio será transformar a proteção formal em presença efetiva do poder público. O ICMBio destaca que será necessário garantir fiscalização, monitoramento, regularização fundiária, orçamento, pessoal e infraestrutura para administrar as novas áreas. Sem esses elementos, a criação de uma unidade de conservação pode ficar limitada ao papel jurídico, enquanto as comunidades continuam enfrentando dificuldades para acessar políticas públicas, assistência técnica, crédito e mercados.

Como a decisão pode gerar oportunidades econômicas no Norte e Nordeste?

A política ambiental adotada pelo governo também abre uma discussão sobre economia da floresta. O Ministério do Meio Ambiente afirma que as novas reservas podem contribuir para uma economia baseada na natureza, capaz de gerar emprego e renda a partir da biodiversidade sem eliminar as bases ambientais que sustentam essas atividades. Para o Amazonas, isso pode significar maior espaço para cadeias ligadas ao extrativismo, produtos da sociobiodiversidade, turismo de natureza e atividades produtivas realizadas pelas comunidades locais.

Outro movimento anunciado na mesma cerimônia reforça essa possibilidade. O governo federal assinou contratos de concessão para duas unidades de manejo sustentável da Floresta Nacional de Humaitá, no Amazonas, abrangendo 162,7 mil hectares. Os contratos têm duração de 40 anos e preveem R$ 240 milhões em investimentos, produção legal de madeira, 339 empregos diretos e 678 indiretos, além de recursos destinados a projetos socioambientais para comunidades do entorno.

O modelo mostra que a política ambiental não precisa ser necessariamente separada da atividade econômica. O manejo florestal sustentável pode criar uma cadeia formal de produção, enquanto unidades de conservação de uso sustentável podem proteger territórios e permitir que populações tradicionais mantenham atividades econômicas compatíveis com a preservação. Para pequenos produtores e empreendedores locais, entretanto, será fundamental que existam capacitação, acesso a crédito, logística e canais de comercialização.

No Piauí, a ampliação do Parque Nacional de Sete Cidades aponta para outra oportunidade regional: o turismo. O parque passou a ter 13.502 hectares e protege uma área de transição entre Cerrado e Caatinga, além de formações geológicas, nascentes, lagoas, cursos d’água e sítios arqueológicos. A expansão também pode fortalecer atividades relacionadas a guias, hospedagem, alimentação, transporte e serviços turísticos nos municípios de Brasileira e Piracuruca.

Por que essas decisões são importantes para o desenvolvimento regional?

A principal questão política daqui para frente será saber se a criação das áreas protegidas virá acompanhada de investimentos capazes de transformar conservação em desenvolvimento. Na Amazônia, isso significa garantir que comunidades tenham condições de participar das cadeias econômicas sustentáveis. No Piauí, significa estruturar o turismo para que o aumento da proteção ambiental resulte também em visitantes, renda e oportunidades para os municípios do entorno.

Os anúncios financeiros feitos na mesma cerimônia indicam que o governo pretende combinar conservação com recursos econômicos. O Fundo Amazônia destinou R$ 50,5 milhões ao projeto Naturezas Quilombolas, voltado à gestão territorial e ambiental de comunidades quilombolas na Amazônia Legal. Já o Fundo Clima financiará R$ 180 milhões para a restauração de mais de 10 mil hectares na Área de Proteção Ambiental Triunfo do Xingu, no Pará.

Esses recursos podem criar oportunidades para empresas, organizações sociais, pesquisadores e trabalhadores especializados em restauração ambiental, monitoramento, produção de mudas, sistemas agroflorestais e gestão territorial. O BNDES também informa que operações do Fundo Clima vêm sendo utilizadas para financiar restauração florestal e sistemas agroflorestais, indicando que a conservação pode movimentar uma cadeia econômica própria.

Ao mesmo tempo, existem riscos que precisam ser acompanhados. Se a expansão da infraestrutura na Amazônia não vier acompanhada de fiscalização e ordenamento territorial, estradas podem facilitar ocupações irregulares, desmatamento e pressão sobre áreas protegidas. Por outro lado, restringir atividades sem oferecer alternativas econômicas sustentáveis pode gerar conflitos com populações que dependem dos recursos naturais para sobreviver. A política pública precisará equilibrar esses interesses.

Os próximos anos devem mostrar se a estratégia de combinar proteção ambiental, infraestrutura e economia sustentável conseguirá produzir resultados concretos para Norte e Nordeste. No Amazonas, as novas reservas colocam comunidades e território no centro da discussão sobre o futuro da BR-319, enquanto as concessões florestais acrescentam uma frente de atividade econômica formal. No Piauí, a ampliação de Sete Cidades pode fortalecer o turismo de natureza e ampliar a proteção de recursos naturais. O cenário tende a favorecer projetos de bioeconomia, turismo, restauração e manejo sustentável, mas o resultado dependerá de fiscalização, infraestrutura, crédito e participação das populações locais.

Fontes oficiais

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